segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Origens de algumas expressões - Parte 02

Assim é, se lhe parece - Frase de autoria do célebre escritor italiano, Prêmio Nobel da Literatura em 1934, Luigi Pirandello (1967-1936), autor de contos, romances e peças de teatro. Algumas de suas obras foram transpostas para o cinema. Seus livros mais conhecidos são O falecido Matias Pascal, Seis personagens à procura de um autor e Assim é, se lhe parece, comédia em três atos que discute a busca da verdade. Dois dos principais personagens, o senhor e a senhora Ponza, por meio de diálogos, apresentam um espelho da vida provinciana, no estilo habitual do autor, marcado por fina ironia, grande dose de sarcasmo, mas também grande compaixão humana. A frase passou a ser usada para encerrar uma discussão.

Até tu, Brutus? - A história desta frase famosa, comumente aplicada a situações de traição, remonta ao episódio que resultou no assassinato do grande imperador, estadista e general romano Caio Júlio César (101-44 a.C.), vítima de conspiração organizada por senadores e aristocratas e liderada, entre outros, por Marco Júnio Bruto (85-42 a.C.), nos idos de março de 44 a.C. A vítima defendeu-se quanto e como pôde de punhais e espadas, até que reconheceu entre os que o atacavam e feriam o próprio filho adotivo. Ao vê-lo, teria pronunciado esta frase que o historiador Suetônio celebrizou em A vida de César. O enteado pagou caro por tramar a morte do pai e, derrotado, suicidou-se dois anos depois.

Cada povo tem o governo que merece - Esta frase é proferida quando se quer falar mal do governo, atribuindo-se ao povo a má escolha. É de autoria do filósofo francês Joseph De Maistre (1753-1821), crítico da Revolução Francesa, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa. Apesar de a frase ter servido sempre para vituperar todos os governos, os alvos preferidos são aqueles escolhidos por voto popular. Porém, nada se diz quando os eleitores mostram sabedoria nas votações. Assim, contrariando a máxima popular, o filho feio sempre tem por pai o próprio povo. No fundo, a crítica não é aos maus governantes, mas aos responsáveis por sua elevação aos cargos.

Com uma mão se lava a outra - Esta frase resume preceitos de solidariedade, dando conta de que as ajudas devem ser mútuas. Foi originalmente registrada no parágrafo 45 do romance Satyricon, do escritor latino Tito Petrônio Arbiter (século primeiro a.C.), transposto para o cinema pelo famoso cineasta italiano Federico Fellini (1920-1994). Em síntese, o romance narra a história de um triângulo amoroso, envolvendo dois rapazes apaixonados por um terceiro, mas livro e filme põem em relevo a decadência dos costumes políticos. Tanto o romancista como o diretor criticam duramente a civilização ocidental, apesar dos 20 séculos que o separam, onde o que mais falta é justamente a solidariedade.

Custar os olhos da cara - A história desta frase começa com um costume bárbaro de tempos muitos antigos, que consistia em arrancar os olhos de governantes depostos, de prisioneiros de guerra e de indivíduos que, pela influência que detinham, ameaçavam a estabilidade dos novos ocupantes do poder. Cegos, eles seriam inofensivos ou menos perigosos. Naturalmente, a expressão alude também ao incomparável valor da visão. Por isso, pagar alguma coisa com a perda dos olhos passou a ser sinônimo de custo excessivo, que ninguém pode pagar. A expressão tem servido para designar preços exagerados em qualquer produto. Um dos primeiros a registrá-la foi o escritor romano Plauto (254-184 a.C.), numa das 130 peças de teatro que escreveu.

De boas intenções o inferno está cheio - Esta frase é de autoria de um teólogo e santo famoso, o francês São Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloísa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles que eram considerados hereges por ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida, não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados.

Dinheiro não tem cheiro - A frase original foi pronunciada em latim, pelo imperador Vespasiano (9-79), cujo filho, Tito, estava inconformado com o novo imposto baixado pelo pai, que, para melhorar as finanças da antiga Roma, taxara os mictórios públicos. Logo nas primeiras arrecadações, Vespasiano tomou uma das moedas recolhidas nas privadas imperiais e pediu que o filho a cheirasse, dizendo: non olet, isto é, não tem cheiro. Vespasiano fez boa administração, recuperou a economia do império e entre seus feitos está também a construção do Coliseu. Mas, como todo administrador austero, incompatibilizou-se com os meios senatoriais.

Dois bicudos não se beijam - Ao contrário do que se possa parecer, o vocábulo não se aplica às aves, mas aos homens. Antigamente eram chamados de bicudo tanto estiletes compridos e armas pontudas, como certos valentões que, nas bodegas, festas e ajuntamentos diversos, patrocinavam arruaças. Indivíduos de pouca conversa e gestos grosseiros, brigavam por qualquer coisa. O brasileiro, tido por cordial e afável no trato entre colegas e amigos, sempre se caracterizou por abraços, afagos, beijos e outras efusivas demonstrações de carinho. Daí o contraste de dois bicudos que não se beijam, de que são exemplo célebres parcerias impossíveis como certos presidentes e vice-presidentes do Brasil, entre os quais Janio Quadros e João Goulart.

Dourar a pílula - Esta frase tem o significado de se apresentar algo difícil ou desagradável como coisa fácil de aceitar. Nasceu de conhecida prática das farmácias antigas, que consistia em embrulhar pílulas em finos papéis, com o fim de preparar psicologicamente o cliente para engolir um remédio de gosto amargo. Do sentido literal, passou a metáfora e logo recebeu aplicação literário, estando um de seus mais antigos registros na peça Anfitrião, de JeanBaptiste Poquelin Molière (1622-1673), em que Sósia, na última cena do terceiro ato, diz: "o senhor Júpiter sabe dourar a pílula". Dourar a pílula é ainda hoje tática sutil de persuadir renitentes, quando se procura destacar os aspectos positivos de algo desfavorável.

É de tirar o chapéu - Foi no reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que a França disciplinou as saudações feitas com o chapéu. O costume vinha dos templos da mais parda das eminências, o cardeal Richelieu, à época de Luís XIII. Os cumprimentos podiam ser feitos com um toque na aba; erguendo-o um pouco, sem retirá-lo da cabeça; tirando-o inteiramente ou fazendo-o roçar no chão, quase como uma vassoura, tudo dependendo da importância social de quem era saudado. Como se sabe, os Luíses XIII e XIV foram reis que se preocuparam muito com chapéus. Logo depois, um dos mais famosos da seqüência, Luís XVI, perdeu muito mais do que o chapéu: a própria cabeça, na Revolução Francesa.

É do tempo da onça - Foi governador do Rio de Janeiro, de 1725 a 1732, o capitão Luís Vahia Monteiro, apelidado o Onça. Em carta que escreveu ao rei Dom João VI, declarou: "nesta terra todos roubam, só eu não roubo". A frase acima foi sempre utilizada para aludir a coisas muito antigas, vigentes naquele tempo. Entretanto, outras autoridades, com o mesmo apelido, podem ter fomentado ainda mais a expressão, homenageando a energia, a coragem e a honestidade do antigo governante. Os novos tempos, infelizmente, não tornaram exceção aquilo que era norma nas práticas dos governantes no tempo do Onça. O pobre homem, a deduzir por sua carta ao rei português, comportava-se como uma virgem num bordel.

Eles que são brancos, que se entendam - A origem desta frase remonta a uma das primeiras punições que o racismo sofreu no Brasil, ainda no século XVIII. Um capitão do regimento dos pardos queixou-se a seu superior, um português, solicitando punição a um soldado que o desrespeitava. Ouviu em resposta: "vocês que são pardos, que se entendam". O capitão, inconformado, recorreu à instância superior, o décimo segundo vice-rei do Brasil, Dom Luís de Vasconcelos (1742-1807). Este, depois de confirmar o ocorrido, mandou prender o oficial português, que estranhou: "preso, eu? E por quê?" "Nós somos brancos, cá nos entendemos", respondeu o vice-rei. Desde então, tornou-se frase feita, dita de outra forma pelo povo. E está registrada em Locuções tradicionais do Brasil de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).

Em terra de cego, quem tem um olho é rei - Esta frase, que não é exclusiva da língua portuguesa, dá idéia de que entre gente ignara, quem é só um pouquinho menos ignorante do que os outros ganha prestígio e recebe tratamento de rei. O filósofo e humanista holandês Desiderius Erasmus, dito Erasmo de Roterdam (1469-1536), foi um dos primeiros a registrá-la. Sua obra mais famosa é Elogio da loucura, em que tenta definir um humanismo cristão, desligado de polêmicas religiosas. Um dos principais nomes da Renascença na Europa do Norte, foi um dos primeiros editores do Novo Testamento. Destacou-se, não em terra de cego, mas em meio a uma constelação de outros renomados filósofos e teólogos do período.

Entrar com o pé direito - Esta frase revela antiga superstição que o Império Romano espalhou no mundo inteiro. Nas festas realizadas na antiga Roma os convidados eram avisados de que deveria entrar nos salões dextro pede (com o pé direito) para evitar o agouro. Famosas personalidades brasileiras seguiram essa recomendação, entre as quais Rui Barbosa, que a registrou em discurso proferido às vésperas da posse do marechal Hermes da Fonseca (1855-1923): "que o novo presidente entre com o pé direito". Mas ninguém acatou mais a superstição que Alberto Santos Dumont, que mandou construir em sua residência escadas por onde só era possível subir ou descer iniciando-se o percurso com o pé direito.

Estar com o diabo no corpo - O diabo tem sido ao longo dos milênios o principal responsável por certos atos que os homens perpetram, mas não querem assumir. O mais comum é que tais práticas estejam no terreno da luxúria, do sexo e de seus domínios conexos. Vários foram os que registraram a frase, entre os quais o talentoso escritor francês, morto aos 20 anos, Ramond Radiguet (1903-1923), que deu este título a um de seus romances em que um adolescente exerce atração sobre uma esposa adúltera. Também Joaquim José da França Júnior (1838-1890), que foi da Academia Brasileira de Letras, registrou a frase na comédia Direito por linhas tortas, só que com outro resultado: "com o diabo no corpo, Sinhá Velha caiu de bordoada em cima de mim".

Errar é humano - Frase do escritor latino Sêneca, o filósofo perceptor do imperador Nero. Sêneca foi bom professor, mas seu aluno desvairado decretou-lhe morte das mais cruéis, ordenando que cortasse os próprios pulsos. O filósofo escreveu diversos livros, entre diálogos, tratados e cartas, e seus ensinamentos estavam baseados na doutrina dos estóicos. São-lhe atribuídas a autoria de obras célebres como Medéia, As troianas e Fedra. Teólogos cristãos, quando citam a frase, costumam emendá-la, escrevendo: "errare humanum est, sed perseverare in erro autem diabolicum". "Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico."

É seu batismo de fogo - Ao condenar os hereges às fogueiras, a Inquisição sustentava que eles não tendo sido batizados com água benta, faziam ali seu batismo de fogo. E aqueles que os condenavam ainda garantiam que os réus estavam fazendo um bom negócio, ao trocar as labaredas eternas do inferno por chamuscadas que apenas os levariam desta vida. Porém, a frase mudou de sentido no século passado, quando Napoleão III (1808-1873) adaptou-se aos que entravam em combate pela primeira vez. Hoje, a expressão se refere a qualquer situação crítica em que os envolvidos têm de obter bom desempenho em tarefas importantes. Mário Vargas Llosa (61) tem um livro com o título Batismo de fogo.

É um elefante branco - Esta frase tem servido para designar grandes empresas estatais deficitárias. Sua origem é um costume do antigo reino de Sião, situado na atual Tailândia, que consistia no gesto do rei de dar um elefante branco aos cortesãos que caíam em desgraça. Sendo um animal sagrado, não poderia ser posto para trabalhar. Como presente do próprio rei, não poderia ser vendido. Matá-lo, então, nem pensar. Não podendo também ser recusado, restava ao infeliz agraciado alimentá-lo, acomodá-lo e ajaezá-lo com luxo, sem nada obter de todos esses cuidados e despesas. A frase foi utilizada pelo ex-presidente João Figueiredo para queixar-se dos excessivos gastos, não de uma estatal, mas de seu sítio do Dragão.

Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço - Um dos mais antigos registros desta frase encontra-se no Evangelho de São Mateus 23, 3, mas com uma variação: "façam tudo o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem, porque eles dizem o que se deve fazer, mas não o fazem". Por motivos de rima, a frase recebeu ainda um personagem imaginário: "Frei Tomás, façam o que ele diz, mas não façam o que ele faz". Antes destes registros, porém, quando ainda não havia frades e santos, nem neste mundo, nem no outro, o comediógrafo e poeta romano Plauto (254-184 a.C.), a quem foi atribuída a autoria de 130 peças de teatro, aconselhou no terceiro ato, na cena III, de sua peça Asinária: "prática aquilo que pregas".

Fazer fiasco - Fazer fiasco é frase que nasceu nos meios teatrais italianos e originalmente foi grafada far fiasco, cuja tradução literal é fazer fiasco. Tudo teria começado quando um comediante meteu-se a fazer graça e volteios risíveis utilizando uma garrafa – fiasco, em italiano. Tendo sido malsucedido, dali em diante certos fracassos cotidianos passaram a ser identificados com esta frase. No Brasil a frase foi traduzida literalmente, e também na França, faire fiasco, mas lá com uma variante: faire un four. O escritor francês, nascido na Suíça, Henry Sthendal (1783-1842) foi um dos primeiros a registrá-la, usando a forma italiana.

Fazer tempestade num copo d’água - Com o significado de aumentar descabidamente a importância de eventuais acidentes nas relações pessoais, esta frase, de raízes antigas, tem sido dita e escrita muitas vezes nesses tempos em que os debates vão ficando cada vez mais acalorados, dada a revelância das questões em exame, de que são bons exemplos os assuntos tratados nas sessões da Câmara dos Deputados e do Senado. Entre os autores que mais cedo a registraram está o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que acrescentou algumas variações, como a de fazer tempestade dentro de um crânio, subtítulo do romance Os miseráveis, e "fazer tempestade no fundo de um tinteiro", numa de suas poesias.

Fazer uma mesa redonda - Hoje é comum organizar mesa-redonda para discutir esse ou aquele assunto, mas raramente o móvel ao redor do qual os participantes tomam assento tem forma circular. É tradução da expressão inglesa round table, mesa da lendário corte do rei Arthur (séc. VI d.C.), que não tinha cabeceira, nem lugar de honra e ao redor da qual o rei e os cavaleiros sentavam-se como iguais. Suas aventuras foram tema de numerosas novelas de cavalaria narradas sob o título geral de Os cavaleiros da távola redonda. A frase passou a ser usada politicamente a partir de 14 de janeiro de 1887 na residência de Sir Willian Harcourt, quando o Partido Liberal Inglês discutiu a questão irlandesa.

Ficam a ver navios - Esta frase remonta ao desaparecimento do rei de Portugal, Dom Sebastião (1554-1578), na famosa batalha de Alcácer Quibir. Como o corpo do monarca não foi encontrado, criou-se a lenda de que ele se encantou e que um dia voltaria, dando origem ao movimento messiânico conhecido como sebastianismo. Multidões passaram a freqüentar o Alto da Santa Catarina, em Lisboa, aguardando a volta do rei e por isso ficavam a ver navios. Passou a ser aplicada a quem perdeu o emprego ou está esperando por alguma coisa que jamais chegará, sendo utilizada também com freqüência para indicar situação que alguém, por não comparecer ao encontrou, deixou o outro a ver navios.

Foi o maior arranca-rabo - Esta frase, que exprime grande confusão, nasceu do deplorável costume que os primeiros guerreiros adotaram nos campos de batalha, consistindo em cortar os rabos das montarias dos inimigos. Um oficial do exército do faraó Tutmés III (1504-1450 a.C.) ensejou um de seus primeiros registros ao vangloriar-se de ter decepado a cauda do cavalo do próprio rei adversário, para ele um ato tão importante que o inscreveu em seu epígrafo. O costume chegou a Portugal, de onde veio para o Brasil, tendo sido aplicado não somente aos cavalos, mas também ao gado das fazendas inimigas, para humilhar seus proprietários. O escritor José Lins Rego (1901-1957) refere o costume nos livros Fogo morto e Meus verdes anos.

Lamber os dedos - As origens desta expressão prendem-se ao costume de dispensar talheres para as refeições. Tomando os alimentos nas mãos, alguns lambiam os próprios dedos, para aproveitar os últimos restinhos do sabor. Usamos a frase para indicar estado de grande satisfação, recordando na prática antiga de prolongar os prazeres da boa mesa. O dramaturgo Gil Vicente (1465-1536), fundador do teatro português, foi um dos primeiros a registrá-la, na Farsa dos físicos. Outro português, Garcia de Resende (1470-1536), também a transcreveu nuns versos em que alude a uma mulher "que lambeu o dedo depois de gostar". Em antigas cortes muitos foram os soberanos que recusaram o uso de talheres, em nome do paladar.

Levou um puxão de orelhas - A origem desta frase, expressão que significa repreender, está ligada a antigas tradições populares, que a recolheram de usos e costumes nem sempre vagos, já que inspirados também em documentos jurídicos. As Ordenações Afonsinas prescrevem que os ladrões tenham as orelhas cortadas. O grande navegador português Vasco da Gama (1469-1524) relatou o corte de 800 delas. E Gomes Freire de Andrade, o conde de Bodadela (1685-1763), governador e capitão-geral do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, personagem do filme Xica da Silva, de Carlos Diegues, recebeu 7800 delas. Depois as orelhas deixaram de ser cortadas e foram somente puxadas. Por fim, tudo virou apenas metáfora de admoestação.

Mateus, primeiro aos teus - Esta frase, mandando aos importunos e chatos que se ocupem primeiro de suas próprias coisas, para só depois nos amolar a paciência, tem sua origem nos Evangelhos. Mateus, antes de tornar-se discípulo de Jesus, era odiado por ser cobrador de impostos em Cafarnaum. A profissão já era hostilizada naquele tempo, e o povo abominava esses funcionários do fisco romano que, conquanto judeus, serviam aos dominadores estrangeiros, além de extorquir taxas pessoais dos contribuintes. Na literatura oral de quase todos os países fixada está esta repulsa, depois recolhida por escritores, como nos versos de um sátira de Gustavo Barroso (1888-1959) no livro Ao som da viola, dando conta de que na vida eterna eles serão condenados.

Não me cheira bem - A intuição está presente nesta frase, muito comum no Brasil, dando conta de que há uma compreensão para além das palavras. Neste caso, afora o sentido da audição, entra o do olfato, posto que em forma de metáfora, para aguçar nosso entendimento. Os cristão primitivos criaram a expressão odor de santidade para caracterizar o estado de uma pessoa virtuosa, já santa em vida. Mas seu contrário, muito mais freqüente, seria um odor desagradável, exalado de pessoas desonestas ou de situações inconvenientes. Um dos que a registraram literalmente foi o escritor português Camilo Castelo Branco, em diálogo onde um personagem comenta um famoso impostor.

Não suba o sapateiro acima da sandália - Apeles (século IV-século III a.C.), o famoso pintor grego que retratou Alexandre, o Grande, costumava expor suas pinturas em praça pública, escondendo-se atrás dos quadros para ouvir a opinião dos que por ali passavam. Concordando com as críticas, retirava suas obras, refazia-as e voltava a exibi-las para novos comentários. Certa vez um sapateiro notou um defeito na chinela de uma figura principal. Apeles corrigiu seu quadro. No dia seguinte, vendo que havia sido atendido, o mesmo sapateiro atreveu-se a criticar também a perna da figura. Apeles saiu de trás do quadro e pronunciou a frase memorável, dando conta de que há limites para a crítica. O padre Manuel Bernardes, um dos melhores estilistas da língua portuguesa, está entre os que registraram a frase famosa.

O homem põe, mas deus dispõe - Esta frase, tão citada como provérbio, deve sua fama ao enorme sucesso do livro A imitação de Cristo, um best-seller que está na lista dos mais vendidos e, neste caso, também dos mais lidos, há vários séculos. Publicado pela primeira vez em 1441 e só perdendo em traduções para a Bíblia, é de autoria do escritor e asceta alemão Tomás de Kempis, que viveu no século XV. A frase significa que, por mais que o homem planeje meticulosamente sua vida, algo de imponderável pode acontecer e deve ser creditado à intervenção divina. Com o passar dos anos outras variações foram surgindo e uma das mais comuns, no Brasil, é Deus não joga, mas fiscaliza.

Olho por olho, dente por dente - Esta frase, que consagra a vingança do preceito jurídico, está inscrita num dos 282 artigos do Código de Hamurabi (1792-175 a.C.), o criador do império Babilônico. Em 1901, arqueólogos franceses descobriram, em território hoje pertencente ao Irã, uma estrela cilíndrica de diorito onde está gravado este célebre conjunto de leis, um dos mais antigos que se tem notícia. Baseado na lei de talião, presente também num dos livros da Bíblia, o Levítico, prescreve para o transgressor pena igual ao crime que praticou. Ainda é aplicado em várias sociedades do Oriente.

O povo quer pão e circo - Segundo uma das sátiras do escritor latino Décimo Júnio Juvenal (60-140), a plebe romana só queria saber de pão e circo, sendo esta uma das razões do declínio do Império. Vários imperadores providenciaram o cumprimento desta máxima, entre os quais Lúcio Vero (130-169), que partilhava com o povo o gosto pelos esportes, principalmente os espetáculos de gladiadores, bem antes das perseguições que levaram os cristãos à maior arena do Ocidente para serem comidos por leões. A frase, retomada por autores de diversas épocas e países, consolidou-se como sinônimo de uma certa preguiça universal. Mas certamente este não é um ponto de vista popular, já que quem mais come, bebe e se diverte é a classe social privilegiada, tanto no capitalismo como no socialismo, haja vista a famosa nomenklatura soviética.

Os fins justificam os meios - A idéia de que não importam que os meios sejam ilícitos quando os fins são nobres consolidou-se nesta frase, atribuída, entre outros, aos jesuítas e aos autores italianos Niccolò Machiavelli (1469-1527) e Francesco Guicciardini (1483-1540), dois filósofos que se preocuparam com o poder e a ética dos governantes, o último dos quais é autor das célebres Ricordi – em italiano, advertências, conselhos – somente agora traduzidas para o português com o título de Reflexões, mais de acordo com os temas do livro.

Pagar o pato - Trata-se de expressão que está presente em vários textos de escritores portugueses e no nosso Gregório de Matos (1636-1695), que escreveu esses versos dirigidos a certa mulata: "quem te curte o cordovão/ por que não te dá sapato?/ pois eu que te rôo os ossos/ é que hei de pagar o pato?" A origem mais remota é uma brincadeira: um pato era amarrado a um poste. A calo, a galope, o jogador deveria de um só golpe, cortar as amarras. Quem errasse pagaria o pato. Passou a significar algum ato pelo qual pagamos sem conseguir nenhum benefício.

Pagar tintim por tintim - No final do século XIX, uma peça intitulada Tintim por tintim, estrelada por uma atriz portuguesa que nela fazia dezoito papéis, teve grande sucesso nos teatros do Brasil. A frase já era famosa por suas ligações com desejos de vingança. Tintim é vocábulo onomatopaico para designar o barulho que fazem as moedas ao se chocarem. A expressão, sempre na boca do povo, indicando que todo pagamento deve ser minucioso, usando-se o dinheiro como metáfora, está presente num clássico da literatura portuguesa, Aulegrafia, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515-1583), autor de teatro, mais para ser lido do que encenado.

Para inglês ver - Esta frase foi dita pela primeira vez em 1808, quando a família real chegou ao Brasil, ainda colônia. A cidade de Salvador, então capital, estava iluminada e Dom João VI (1767-1826) comentou que aquela recepção festiva demonstrava aos ingleses, aliados e protetores dos portugueses, que os brasileiros recebiam-no calorosamente. Virou, depois disso, símbolo de burla nacional ou internacional, sempre de grandes proporções, em que são utilizados vistosos aparatos para enganar. Alguns historiadores dizem que a frase pode ter nascido da fingida vigilância com que os navios brasileiros procuravam navios negreiros. Faziam isso apenas para agradar aos ingleses, que haviam proibido o tráfico de escravos.

Que bicho foi que te mordeu? - A história desta frase diz respeito à estranheza que sempre espertou o comportamento surpreendente de alguma pessoa da qual não esperaríamos alteração brusca de humor ou de opinião. Está presente em numerosos autores, mas um dos primeiros a registrá-la foi o escritor francês, muito citado por nossos poetas românticos, Nicolas Boileau-Despréaux (1636-1711), numa de suas sátiras. Mas em francês o bicho era uma mosca, dado que antes de Boileau, a expressão já andava na boca do povo com essa redação: quelle mouche vous pique? (que mosca vos pica?). A mudança havida do inseto específico e caseiro para o abstrato bicho pode Ter explicações na diversificação de animeis presentes em nossa fauna.

Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha - Esta frase foi criada pelo locutor esportivo Osmar Santos, um dos mais criativos narradores de jogos de futebol. Inconformado com os modos tradicionais de transmitir as partidas, ele foi inventando expressões que logo caíam na boca do povo. No caso, apesar da complexidade da frase, todos entendem seu significado. Chute dado na bola com a parte exterior do pé. Não se sabe onde o famoso locutor se inspirou para criar a frase, mas é provável que tenha juntado ripa, sinônimo de sarrafo, com chulipa, sinônimo de dormente de ferrovias, para designar a forma de se chutar a gorduchinha, isto é, a bola.

Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai até a montanha - Esta frase foi originalmente dita pelo fundador do Islamismo, o profeta Maomé (570-632). Significa preferir o simples ao complicado. Durante 15 anos, este grande líder refletiu sobre o projeto de organizar todos os árabes sob rígidas leis, combinando religião, política e moral. Converteu a muitos, mas teve também que enfrentar inimigos poderosos, refugiando-se em Medina, no ano de 622. Essa fuga, chamada de Hégira, marca o começo da Era Muçulmana. A frase foi pronunciada quando tentava converter um grupo de árabes e esses o desafiaram de mover o monte Safa para perto de si. Maomé tentou e, não conseguindo, foi até a montanha, acrescentando ter sido graça de Deus não ter conseguido o milagre, pois, ao mover-se, a montanha mataria todos ali reunidos.

Ser surdo como uma porta - A pesquisa sobre a origem desta frase toma um caminho que logo se bifurca. Para alguns se deve a costumes religiosos de Roma antiga, segundo os quais algumas portas eram consideradas deusas a quem muitas pessoas, especialmente os namorados, faziam suas súplicas. Quando os pedidos eram atendidos, a porta recebia agradecimentos em forma de palavras, abraços, beijos e lágrimas de alegria. Quando, porém, a porta se mostrava surda às solicitações, era ofendida com diversos impropérios que visavam castigar a sua surdez. O costume foi registrado pelo escritor latino Festus, que viveu no século quarto. O filólogo João Ribeiro (1860-1934) tem, porém, outra explicação. Surda era a porta que não abria por ter seus fechos emperrados e, por conseguinte não emitia som algum.

Tal pai, tal filho - Esta frase sintetiza a sabedoria popular de que os filhos reproduzem qualidades e defeitos dos pais. Muito antiga, já aparece no canto III de Os Lusíadas, o mais famoso poema de toda a literatura de língua portuguesa, da autoria de Luís Vaz de Camões. Ao inserir a frase nos seus versos, o poeta quis dizer que Dom Afonso Henriques (1110-1185), o primeiro rei de Portugal, herdara a coragem de seu pai, que participara da Primeira Cruzada, cujo fim era retomar o Santo Sepulcro das mãos dos turcos. Algumas variações da mesma frase estão presentes em diversas línguas, com o mesmo significado.

Uma no cravo, outra na ferradura - Esta frase traz a palavra ‘batida’ oculta em duas elipses, visto que se trata de alternar as pancadas. Sua origem remota está no ato de ferrar os cavalos, dado que as ferraduras são fixadas nos cascos por meio de cravos, que entram nas unhas dos animais à força de marteladas. Em sentido metamórfico, porém, a expressão é empregada como sinônimo de imparcialidade, principalmente nas críticas. O escritor José de Alencar (1829-1877), nascido no Ceará, definiu a política de Dom Pedro II com esta máxima, registrando-a numa passagem de A guerra dos mascates. Outros estadistas empregaram a mesma frase para resumir suas ações. E muitos a empregaram sem registrá-la

Vá plantar batatas - A origem desta frase é portuguesa. Antigamente, em Portugal, país mais voltado às navegações e à pesca, a agricultura, conquanto fornecedora de alimentos básicos, era vítima de certo desdém. Algumas de suas culturas eram ainda mais depreciadas, como era o caso da batata, que demorou a entrar para a culinário portuguesa e brasileira. Era tida como alimento vulgar, e quem se dedicasse a plantar batatas estava se sujeitando a uma atividade desqualificada. A expressão aparece registrada em O povo português, obra do famoso poeta, folclorista e político lusitano Teófilo Braga (1843-1924), comentando a decadência das pequenas indústrias, ocasião em que trabalhadores qualificados, de repente sem emprego, foram aconselhados a plantar batata.

Vá tomar banho - A origem desta frase, que é pronunciada como ofensa no Brasil, pode estar vinculada à concepção de que a higiene tem muito a ver com a virtude, assim como a sujeira com o pecado. Sujo é um dos nomes do diabo. Não somente pecados, mas também crimes e erros são qualificados como sujeiras. Ao contrário de nossos primeiros colonizadores, arredios ao banho, os índios dessas plagas sempre cultivaram a higiene pessoal. A frase, dita em desabafo ou em reprimenda, inscreve-se na tradição geral que considerava o banho como condição prévia ao recebimento de algum favor, insígnia, distinção. Foi considerado tão importante lavar-se que o rei inglês Henrique IV (1367-1413) criou a Ordem do Banho.

Virar a casaca - A política brasileira está cheia de gente que virou a casaca, isto é, homens públicos que trocaram de partido, passando a defender idéias que antes condenavam. A origem da expressão remonta a Carlos Manuel III (1701-1771), duque de Savóia e rei a Sardenha. Sempre ameaçado, ora pela Espanha, ora pela França, usava as cores nacionais de uma dessas nações, de acordo com a aliada ocasião. Tanto virou casaca que permaneceu no poder por 43 anos. No Brasil, muitos políticos mudaram de partido depois de eleitos. O presidente da então Arena, José Sarney, passou para o PMDB, em 1984, elegendo-se indiretamente vice-presidente da República. Todos sabem o que aconteceu depois.

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