terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sam Raimi

Sam Raimi (Samuel M. Raimi), nasceu em 23 de outubro de 1959 em Franklin, Michigan, nos Estados Unidos. Diretor, produtor, roteirista e ator, é filho de Leonard Raimi, proprietário de uma loja de móveis, e de Celia Raimi, uma empresária.

Desde sua tenra juventude e com uma câmara de 8 mm Raimi realizou seus primeiros curtas como narrador de histórias, prediletamente dos tipos fantásticos e de humor, imitando os filmes dos "Três Patetas" (Three Stooges).

Após concluir a escola secundária matriculou-se na Universidade de Michigan State, na qual conheceu Robert Taper e Bruce Campbell, que se converteria em seu ator predileto. Com ambos criou a produtora Reinassance Pictures.

No final dos anos 70 realizou seus primeiros curtas, como “It’s murder!” (1977), “Within the woods” (1978) e “Clockwork” (1978), fitas de terror com retalhos de comédia que exibiam sua destreza em efeitos visuais com um vigoroso emprego do movimento da câmara.

No começo dos anos 80 realizou seu primeiro longa-metragem, "Uma noite alucinante" - "A Morte do Demônio" (Evil dead, The, 1982), uma fita de terror que lhe valheu aplausos no Festival de Cannes.

Posteriormente apareceu como ator em "Dois heróis bem trapalhões" (Crimewave, 1985), uma comédia dirigida por seu bom amigo John Landis. "Uma noite alucinante 2" (Evil dead 2), em 1987, seqüência de "Uma noite alucinante" - "A morte do demônio", devolveu o sucesso a Raimi depois do fiasco comercial de seu prévio trabalho, graças ao tom de paródia, ao sentido "cartoon" empregado no relato e ao estilizado processo narrativo.

No final dos anos 80 produziu fitas de terror como “Mondo Zombie” (1989) de J. R. Bookwalter ou “Easy wheels” (1989), filme cult que também escreveu (com o pseudônimo de Celia Abrams) junto com seu irmão Ivan e o diretor David O’Malley. “Darkman” (1990), título do filme de ficção científica protagonizado por Liam Neeson faz com que alcance grande sucesso como diretor cinematográfico.

Posteriormente rodaria a comédia de terror e aventura "Uma noite alucinante 3" (Army of darkness) (1993), terceira da séria iniciada com "Uma noite alucinante" - "A morte do demônio" com Campbell repetindo o papel de Ash J. Williams. No mesmo ano da estréia de "Uma noite alucinante 3" Sam se casa com Gillian Greene, filha do ator Lorne Green, conhecido por ter se protagonizado na série “Bonanza”.

A década terminaria para Raimi com o western "Rápida e mortal" (Quick and the dead, The) (1995), "Um plano simples" (A simple plan, 1998), thriller baseado na novela de Scott B. Smith, e "Por amor" (For love of the game, 1999), fita romântica ambientado no mundo do beisebol, adaptado de um livro de Michael Shaara.

Neste período também colaborou com os irmãos Coen escrevendo o roteiro do filme "The Hudsucker Proxy" (1994). Depois de "O dom da premonição" (Gift, The, 2000), um thriller escrito por Billy Bob Thornton, Sam Raimi rodou seu filme que mais rendeu nas bilheterias, adaptado das revistas em quadrinhos, "Homem-Aranha" (Spiderman, 2002),que contava como ator principal Tobey Maguire. Posteriormente apareceria suas seqüências, “Spiderman 2” (2004) y "Spiderman 3" (2007).

Filmografia (como diretor)

2007 - Homem-Aranha 3 (Spider-man 3)
2004 - Homem-Aranha 2 (Spider-man 2)
2002 - Homem-Aranha (Spider-man)
2000 - O dom da premonição (Gift, The)
1999 - Por amor (For love of the game)
1998 - Um plano simples (A simple plan)
1995 - Rápida e mortal (Quick and the dead, The)
1993 - Uma noite alucinante 3 (Army of darkness)
1990 - Darkman - Vingança sem rosto (Darkman)
1987 - Uma noite alucinante 2 (Evil dead 2)
1985 - Dois heróis bem trapalhões (Crimewave)
1982 - Uma noite alucinante - A morte do demônio (Evil dead, The)
1978 - Clockwork
1978 - Within the woods
1977 - It's murder!

Fonte: Adictosalcine.com - Sam Raimi.
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Hans Christian Andersen


Com seu extraordinário talento para criar encantadores contos infantis, Andersen conquistou reconhecimento mundial e estimulou a imaginação de um sem-número de crianças e adultos.

Hans Christian Andersen nasceu em Odense, Dinamarca em 2 de abril de 1805, filho de um sapateiro e uma lavadeira. Menino sensível, preferia entreter-se sozinho e inventar histórias a brincar com outras crianças. Quando tinha 11 anos, seu pai morreu.

As dificuldades financeiras forçaram-no a tentar um ofício, mas sua índole introspectiva e delicada tornava-o alvo de zombaria entre os colegas. Aos 14 anos foi para Copenhague, disposto a fazer carreira no teatro, como cantor, dançarino ou ator. Conseguiu um lugar como extra, mas a inaptidão para essas artes levou-o a ser dispensado pouco depois. Nesse meio tempo obtivera a estima de alguns escritores e compositores, que o protegeram nas grandes privações materiais e forneceram-lhe meios, em 1828, de entrar para a universidade e completar os estudos.

Escreveu poemas, peças e romances, que não foram bem recebidos, embora conseguisse publicar dois livros. A situação material mais folgada permitiu-lhe viajar pela Europa e, em 1833, uma ida à Itália proporcionou-lhe a inspiração para Improvisatoren (O improvisador), primeiro romance de sucesso. Escreveu então suas primeiras quatro histórias para crianças, publicadas em 1835 em Eventyr og historier (Contos de fadas e histórias). Até 1872 continuou a publicar contos infantis (um total de 168 em cinco séries), que seriam traduzidos para mais de oitenta línguas e lhe trariam imensa fama.

Com estilo vivo e ágil, recriou em seus contos o folclore da Dinamarca e dos países que visitou. Os elementos fantásticos predominam, mesclados às vezes a um toque de amargura. Se algumas histórias revelam crença otimista na vitória da bondade e da beleza, outras são de profundo pessimismo. Não faltam também o humor e a sátira às fraquezas humanas. O componente autobiográfico apresenta-se na maior delas, como em "O patinho feio" e "O soldadinho de chumbo", embora todas sejam sobre problemas humanos universais.

Com toda razão Andersen deu a uma de suas duas autobiografias o título de Mit lyvs eventyr (O conto de fadas de minha vida). Do período inicial com enormes dificuldades à posição de escritor mundialmente reconhecido e estimado, a trajetória de sua vida lembra suas histórias de meninos pobres e humilhados que se transformam em príncipes. Andersen morreu em Copenhague em 4 de agosto de 1875.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
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O sacrilégio

No fim de quinze dias de namoro, ele veio com a idéia:

— Sabe de uma coisa? Preciso te apresentar à mamãe.

— Quando?

Ele pensou um pouco:

— Que tal amanhã?

— Ótimo!

Combinaram então, de pedra e cal, que seria no dia seguinte, de qualquer maneira. Desde que se conheciam e se namoravam que Márcio quase só falava na santa senhora. Era mamãe pra cá, mamãe pra lá. E afirmava mesmo, num desafio a qualquer outra opinião em contrário:

— A melhor mãe do mundo é a minha. Só vendo!

E de tanto ouvir falar na futura sogra, Osvaldina fazia a reflexão meio irritada: “Ora bolas! Pensa que só a mãe dele presta e as outras não!”. Fosse como fosse, preparou-se para conhecer uma senhora tão exaltada nas suas virtudes esplêndidas. Antes, Márcio, atarantado, fez-lhe mil e uma advertências: “Batom não, meu anjo! Mamãe não gosta de pintura”. E, já a caminho, ele teve outra lembrança: “Nada de gíria, porque mamãe não tolera gíria”. Enfim, conheceram-se a nora e a sogra. O filho precipitava-se a todo momento:

— Não senta aí, não, mamãe. Faz golpe de ar!

AS DUAS

Inicialmente, a velha, sem dizer uma palavra, e sem nenhuma cordialidade aparente, imobilizou a pequena com um desses olhares implacáveis, que parecem despir a pessoa, virá-la pelo avesso. Em seguida, em tom seco e inapelável de ordem, disse:

— Sente-se.

E, com o rosto impassível, inescrutável, foi fazendo perguntas sobre perguntas. Antes de mais nada, quis saber se Osvaldina era religiosa. A menina, presa de uma inibição mortal, admitiu:

— Acredito em Deus, mas não sou carola.

E a velha:

— Que bobagem é essa? Não é carola por quê? Pois devia . ser carola!

Osvaldina, atônita, tinha vontade de se enfiar pelo chão adentro:

— Eu? — balbuciou.

— Claro, evidente! É alguma desonra ser carola? Diga? É? Ora veja!

Depois de duas horas de conversa, em que a futura sogra se serviu dela e a desfrutou, de alto a baixo, sem o menor tato ou contemplação, Osvaldina saiu de lá desorientada. E quando ela e Márcio tomaram o ônibus, a pequena teve um suspiro:

— Santa Bárbara!

Márcio, sem perceber a depressão pavorosa da namorada, deu largas ao seu entusiasmo de filho e fã:

— É ou não é o que te disse? A melhor mãe do mundo? Batata!

O TRIO

Quando começaram a procurar apartamento para casar, Márcio fez a advertência:

— Olha, rua de bonde não serve porque mamãe tem sono muito leve. Acorda com qualquer barulho.

Osvaldina caiu das nuvens:

— Quer dizer, então, que ela vai morar com a gente?

E ele, quase ofendido com a pergunta:

— Mas claro! Então, você acha o quê? Que eu ia abandonar minha mãe? E sofrendo do coração? Nem que o mundo viesse abaixo!

Osvaldina suspirou apenas. Mas sua decepção foi uma coisa tremenda. Mais tarde, contaria em casa a novidade. Foi um deus-nos-acuda. Disseram francamente:

— Sogra e nora morando juntas é espeto!

Osvaldina admitiu, atribuladíssima:

— Eu também acho! Eu também acho!

Passaram-se dois ou três dias. E, então, a pequena, em conversa com o namorado, propõe o problema.

— Tua mãe vai morar com a gente. E quem vai ser a dona de casa?

— Ela.

— Como?

Márcio explodiu:

— Mas carambolas! Então, você acha que minha mãe, uma senhora, vai receber ordens de uma garota como você? Que diabo! Será que você não pensa, não raciocina?

PRIMEIRA NOITE

Houve um momento em que, quase, quase, Osvaldina mandou o namorado passear. Mas a verdade é que o amava com um desses amores de fado, uma dessas paixões que escravizam a mulher. Aceitou a coabitação com a sogra, teve a exclamação fatalista e melancólica:

— Seja o que Deus quiser!

Casaram-se. Ela desejaria, no seu fervor de noiva, uma lua-de-mel fora, num hotel de montanha. Ele, porém, a desiludiu positivamente:

— E a mamãe? Você se esquece da mamãe? Imagine se, em casa, sozinha, ela tem uma coisa, imagine!

Novo suspiro de Osvaldina:

— Paciência!

Para que negar? Essas coisas a enfureciam, a prostravam. Mas enfim casaram-se e a lua-de-mel foi mesmo no apartamento. Na primeira noite, aconteceu apenas o seguinte: à uma hora da manhã, despedido o último convidado, os recém-casados recolheram-se, no deslumbramento que se pode imaginar. Era o momento em que tanto um como o outro podiam dizer: “Enfim, sós”. A primeira providência de Márcio foi fechar a luz principal do quarto. Ficou acesa apenas a lâmpada discreta, na mesinha-de-cabeceira. Então, o noivo, estreitando a pequena nos braços, delirou:

— Meu anjinho!

Sua mão correu por debaixo da camisola até o joelho ou pouco acima.

Foi neste momento, precioso e inesquecível, que bateram na porta. Era, como não podia deixar de ser, d. Violeta. O filho instantaneamente desligou-se do seu próprio êxtase, arremessou-se. Osvaldina trincou os dentes; fez o comentário interior: “Velha miserável!”. E Márcio, aflito, atendia a d. Violeta.

Simplesmente ela abusara de doces, de camarões, de carne de porco, na festa do casamento. Torcia-se, agora. O filho desesperado pôs a mão na cabeça:

— Eu não disse à senhora para não comer camarão? A senhora é teimosa que Deus te livre!

O pobre-diabo foi botar a capa de borracha em cima do pijama para comprar elixir paregórico. Quis que, enquanto isso, a noiva ficasse com d. Violeta. A pequena, porém, de bruços na cama, num desespero tremendo, disse, entredentes:

— Não fico com tua mãe coisa nenhuma! Eu vou é dormir!

O FUROR

Osvaldina ficou abandonada no quarto, numa solidão de viuvez, ao passo que o marido se desvelava à cabeceira materna. A sogra interrompia seus ais para fazer a observação ressentida: “Tua mulher nem pra saber se eu morri!”. De fato, a menina jamais perdoou, nem à sogra, nem ao marido, o naufrágio da primeira noite nupcial. Foi franca:

— Meu filho, nossa lua-de-mel foi-se por água abaixo!

Ele protestava:

— Deixa de ser espírito de porco! Teu gênio é de amargar!

Então, as duas instalaram, naquele apartamento, um inferno. Está claro que, prestigiada pelo filho, d. Violeta levava sempre a melhor. E Márcio, entre os dois fogos, virava-se para a mulher:

— Você tem assinatura com minha mãe!

Osvaldina não podia ouvir um programa de rádio, porque d. Violeta irrompia, lá de dentro, para mudar de estação. As humilhações, as incompatibilidades, os desacatos eram tantos que, um dia, chorando, a nora colocou o problema nos seguintes termos histéricos:

— Uma de nós duas tem que morrer!

Semelhante declaração transpassou Márcio. Ele recuou dois passos, de olhos esbugalhados. Dir-se-ia que a mulher era um chacal, uma hiena. Quis que Osvaldina, imediatamente, pedisse perdão pela blasfêmia. Ela foi irredutível, no seu rancor. E, de noite, honestamente ressentido, o rapaz, muito sereno e viril, comunicou-lhe:

— De hoje em diante, durmo na sala.

E ela:

— Ótimo. É melhor assim.

DESENLACE

Durante umas duas semanas, com integral apoio materno, dormiu na sala. Já d. Violeta, exultante com o incidente, soprava ao ouvido do filho que “o negócio era separação”. Todos os dias, com método, com técnica, a velha punha mais lenha no ressentimento do rapaz, açulava o seu rancor. E ele já não olhava mais para a mulher. Fazia questão de ignorar a sua existência. Com os amigos, perdera as cerimônias; confessava: “A situação lá em casa está braba”. Pausa e admitia: “Acho que vou me separar de fulana”.

No dia, porém, em que ia procurar um advogado amigo para tratar do desquite, foi chamado às pressas. Voou para casa. Um desses edemas agudíssimos e inapeláveis fulminou d. Violeta. Morreu nos braços do filho. Osvaldina, que estava perto, fez seus cálculos: “É agora que ele se atira do décimo sexto andar”.

Mas não, Márcio chorou e sentiu, não há dúvida. Menos, porém, do que ele próprio poderia esperar. E tanto que, enquanto vestiam a defunta, o rapaz, na sala, choroso, surpreendeu-se a fazer uma coisa detestável e quase sacrílega.

Pois não é que, sem sentir, sem querer, estava admirando a mulher, o corpo, a curva do quadril, como se visse Osvaldina pela primeira vez? Quis desviar o pensamento para rumos mais piedosos e fúnebres. Todavia, o encanto continuava.

Espantado, apertando na mão o pranteadíssimo lenço, pasmava: “Ora bolas!”.

O fato é que se sentia prodigiosamente outro. Algo se extinguira nele, talvez um medo ou quem sabe? Às três horas da manhã, estavam ele, a esposa e dois ou três parentes, fazendo quarto, à sombra dos quatro círios. De repente, ele não se contém: levanta-se, vai até a porta e chama a mulher.

Osvaldina obedece. E então, no corredor, o rapaz dá-lhe um beijo, rápido e chupado, na boca. Sua mão deslizou, crispando-se numa nádega vibrante. Depois, sem uma palavra, lambendo os beiços, voltou. Trêmulo, de olho rútilo, senta-se entre os parentes que cochilavam.
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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
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