sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Fome de beijos

Caiu das nuvens:

— Você tem filhos?

— Tenho.

Epaminondas pôs as mãos na cabeça:

— Mas não é possível! Não pode ser! — Engole em seco e pergunta: — Mas filho de que idade?

Resposta:

— Nove anos!

E ele:

— Sabe que eu estou com a minha cara no chão? Besta?

— Pois é.

O espanto de Epaminondas tinha a sua razão de ser. Conhecia Silene há três dias. Quase não sabia nada a respeito da garota; ou por outra: — sabia apenas que era viúva. Do ponto de vista físico, tinha um jeito adolescente, uma cinturinha frágil e fina, quadris estreitos e, numa palavra, um corpo de menina solteira. Assim que a viu, num ônibus apinhado, ele fez seus cálculos: “Essa menina perdeu o marido de cara, tem pouquíssima experiência amorosa e deve ser gostosíssima”. Conversara três vezes com Silene e, na última, recebe à queima-roupa a notícia que havia um filho de nove anos. De si para si, Epaminondas deduz: — “Garoto de nove anos, não dá para atrapalhar”.

O MEDO

Na tarde seguinte, fez como das vezes anteriores: veio para o saguão do edifício, onde ela trabalhava, esperá-la. Depois, iria levá-la ao ponto de ônibus. Mas quando Silene saiu do elevador, no meio de um mundão de gente, e o viu, assustou-se. Olhava para um lado e outro, como se existisse um espião nas proximidades. Diante de Epaminondas pede: “Não faça mais isso”. Epaminondas não entende: “Por quê?”. E ela, visivelmente nervosa: — “Alguém pode ver e não convém”. Epaminondas pergunta:

— Mas você não é livre? Desimpedida? Ou tem algum compromisso?

Vacila antes de responder:

— Compromisso, propriamente, não tenho. Mas tenho um filho. Imagina se meu filho! Se desconfia!

Em pé, no meio da calçada, Epaminondas abre os braços: “Você liga tanto ao que diz um pirralho? Faça-me o favor!”. Então, caminhando para o poste de ônibus, Silene vem explicando certas coisas de sua vida. Primeiro, faz a ressalva: “Eu tenho uma forte simpatia por você, mas...”. Explica que o filho, um menino taludo e desabusado, a tiranizava mais que o marido. Epaminondas, pasmo, exclamou: “Ora veja!”. Silene temia mais aquele julgamento infantil do que o próprio Juízo Final. Epaminondas enfia as duas mãos nos bolsos:

— Mas isso é um absurdo! Não tem o menor cabimento!

O FILHO

Antes de apanhar o ônibus, ela vira-se para Epaminondas:

— Faz o seguinte: telefona amanhã para mim, depois do almoço. Eu te digo qualquer coisa.

Epaminondas despede-se e vem para o bar encontrar-se com seus amigos, no começo da noite. Impressionado, refere o caso da jovem mãe escravizada por um fedelho. Um dos colegas resume: “Histerismo!”. O outro decide: “Caso de psicanálise!”. Ao que um terceiro retruca: “Caso de tapona!”. Quanto ao próprio Epaminondas, coçava a cabeça, ainda inconformado:

— Que mágica besta!

Conforme o combinado, o rapaz, depois do almoço na tarde seguinte, bate o telefone. Silene parecia desesperada. “Vamos acabar!” Surpreso, Epaminondas ponderou sensatamente: “Acabar o que ainda não começou? Tem dó, meu bem!”. Sentiu, porém, que a garota estava num pânico real e profundo: “Ele desconfia, ouviu?”. Novo espanto irritado de Epaminondas:

— Desconfia de quê, ora bolas? Se não houve nada, se não fizemos nada?!

Angustiada ela explica: — “Meu filho adivinha! Quando ele põe os olhos em mim, lê o meu pensamento, percebe tudo!”.

Epaminondas reage, violentamente:

— Vou te dizer o seguinte: se eu não te conhecesse, como te conheço, ia pensar que tu és uma doente mental! Palavra de honra!

Silene, chorando, propõe: “Se tu quiseres falar comigo pelo telefone, muito que bem. Pessoalmente não”.

AJUSTE

Embora indignado, submeteu-se. Não foi esperá-la mais. Em compensação, seus telefonemas eram quilométricos, durando nunca menos de quarenta minutos. Dia a dia, ele foi se tomando de um rancor obtuso contra o menino. Esbravejava:

— “Sabe que essa autoridade de teu filho sobre ti é até imoral? No duro que é!”.

Ela, que fora casada três meses apenas, confessava:

— Eu não respeitava o meu marido como respeito o meu filho!

Um dia, ele diz ao telefone:

— Queres saber de um negócio? Tu não gostas do teu filho. Tens medo, o que é diferente. — E insistia, encarniçado: — Não é amor, é medo!

No trabalho, com as colegas, Silene admitia que o marido fora apenas o marido e nada mais. E acrescentava: “Epaminondas, não, Epaminondas é amor no duro, amor batata”. Resumia para as companheiras interessadíssimas: “Meu primeiro amor”. Quem não via com bons olhos o romance telefônico era o chefe. Sempre que passava e surpreendia a funcionária no telefone, ele rosnava: “Débil mental!”. Até que, uma tarde, acontece o imprevisto: o menino aparece, no escritório, por conta própria, sem avisar. Dir-se-ia que uma dessas intuições reveladoras o guiava. Coincidiu que, no momento, por infelicidade, Silene estivesse escravizada ao telefone e chorando. Na frente de todo mundo, arranca o aparelho das mãos maternas. Nessa tarde, ela, numa pusilanimidade abjeta, larga o serviço, larga tudo, para acompanhar o menino. Que pavoroso ajuste de contas teria havido, em casa, entre mãe e filho? Que dilaceramento recíproco e definitivo? Nunca se soube.

NECROTÉRIO

O fato é que, no seguinte telefonema de Epaminondas, Silene parecia outra. Despachou-o:

— Não me procure mais, nunca mais. Entre você e meu filho, fico com meu filho.

Sentiu que a perdera. Durante uns vinte e cinco dias, en¬tregou-se de corpo e alma ao desespero. Vivia continuamente na fronteira da loucura e do suicídio. E só não estourou os mio¬los porque passava os dias, de um sol a outro sol, bêbado de todo, bêbado de cair. Um mês depois, ele vê, na rua, Silene com o menino. Pensa com ódio no coração: “É ele!”. Põe-se a segui-los, com uma obstinação de possesso. Súbito, a mãe e o filho estacam em cima do meio-fio. E, quando começam a atravessar a rua, Epaminondas apressa o passo e se coloca ao lado do ga¬roto. Era um cruzamento de tráfego intensíssimo. No meio do caminho, os três vacilam. Vêm dois ou três automóveis em dis¬parada. E, antes que chegassem ao outro lado, um lotação apa¬nha a criança, em cheio, projetando-a longe.

Imediatamente, os outros carros freiam. Silene, no meio da rua, grita como louca, ao passo que Epaminondas desaparece. Levado para o pronto-socorro, numa ambulância, o pequeno expira horas depois. Sofrera fratura de crânio, da espinha, afundamento do maxilar.

Numa dor enxuta e atônita, Silene acompanha os homens que levam o filho ao necrotério. Os círios são colocados e acesos.

Retiram-se os funcionários e ela está só com o pequeno morto, enrolado em gazes ensangüentadas. Súbito, sente que há mais alguém ali, que chegou alguém.

Vira-se com o coração apertado: Epaminondas está na porta, petrificado. Ela aproxima-se do recém-chegado. Face a face com ele, acusa-o: “Empurraste meu filho!”. Epaminondas baixa a cabeça, trancando os lábios.

E ela, ofegante:

— Agora que meu filho está morto, eu posso ser tua!

Aperta o seu rosto entre as mãos e o beija na boca, como uma esfomeada.
  ________________________________________________________________
A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Leia mais...

Origem do termo "Restaurante"

O termo restaurante (do francês restaurant) surgiu no século XVI, com o significado de "comida restauradora", e se referia especificamente a uma sopa. O uso moderno da palavra surgiu por volta de 1765 quando um parisiense conhecido por Boulanger (sobrenome comum, mas que significa padeiro em francês) abriu seu estabelecimento.

O primeiro restaurante como o conhecemos (com clientes escolhendo porções individuais em um cardápio, aguardando em suas mesas, com horários fixos ou não) foi o "Grande Taverne de Londres", fundado em 1782 por Antoine Beauvilliers, na rua de Richelieu, em Paris, que permaneceu 20 anos sem rival.

Porém, segundo o Guiness Book, o restaurante mais antigo do mundo e ainda em funcionamento fica na Espanha, na calle de Cuchileros 17, Plaza Mayor (Madrid). Trata-se do Sobrino de Botín que fuciona ininterruptamente desde 1725, embora nos primeiros anos não fosse exatamente um restaurante, mas uma estalagem que recebia viajantes, mercadores, tropeiros. Pertencia ao cozinheiro francês Jean Botín e não ficava nesse endereço atual, mas na Plaza de Herradores, longe dali. Candido Remis, sobrinho do primeiro dono, batizou a casa com o nome atual, Sobrino de Botín.[1]

Apesar das pousadas e tavernas serem conhecidas desde a antigüidade, estes estabelecimentos eram voltados a viajantes e, em geral, o povo das suas cidades raramente se alimentavam lá. O restaurante se firmou na França após a Revolução Francesa destituir a aristocracia, deixando um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos, ao mesmo tempo em que muitos provincianos chegavam à cidade sem pessoas para cozinhar para elas, nem cartas de apresentação às famílias locais. O encontro desses dois públicos deu origem ao hábito de se fazer refeições fora de casa. Neste período, o chef Marie-Antoine Carême, segundo muitos o fundador da moderna culinária francesa, prosperou, se tornando conhecido como o "cozinheiro dos reis e o rei dos cozinheiros".

Os restaurantes proliferaram rapidamente nos Estados Unidos, com a abertura do primeiro Jullien's Restaurator em Boston, em 1794, e espalharam-se posteriormente. Contudo, muitos continuaram com a abordagem habitual do "serviço à francesa", providenciando uma refeição partilhada na mesa onde os clientes serviam-se eles próprios, o que os encorajava a comer com rapidez. O estilo moderno formal de jantar, onde os clientes são servidos com a comida já preparada num prato, é conhecido como Service à la russe, pois consta ter sido introduzido em França pelo princípe russo Kurakin cerca de 1810, de onde se espalhou para Inglaterra e outros países.

Fonte: http://www.pizzarellasaobento.com.br
Leia mais...

O papel e sua história

A palavra papel é originária do latim "papyrus", nome dado a um vegetal da família "Cepareas" (Cyperua papyrus), encontrado às margens do rio Nilo, no Egito,  e que representou para os egípcios o suporte da escrita hieroglífica, veículo de transmissão do conhecimento e da sensibilidade do homem da época.

O talo dessa planta era cortado na parte interior onde se encontravam as fibras muito resistentes e flexíveis e que unidas em lâminas, serviam de superfície própria para escrever.

O papiro atravessou séculos, levando a cultura do Egito a outros povos, copiada até pelos gregos e romanos, que escreviam em rolos; por isso permitiu não só a preservação da memória cultural, mas serviu também de testemunho da história dos materiais usados pelo homem.

No século II, o papiro fazia tanto sucesso entre os gregos e os romanos, que os mandatários do Egito decidiram proibir a sua exportação, temendo a escassez do produto. Isso disparou a corrida atrás de outros materiais.

Na cidade de Pérgamo, na Antiga Grécia (hoje, Turquia), foi usado o pergaminho, obtido da parte interna da pele do carneiro. Grosso e resistente, ele era ideal para os pontiagudos instrumentos de escrita dos ocidentais que cavavam sulcos na superfície do suporte, os quais eram, depois, pacientemente preenchidos com tinta.

O pergaminho, entretanto, não era liso e macio o suficiente para resolver o problema dos chineses, que praticavam a caligrafia com o delicado pincel de pêlo, inventado por eles ainda no ano 250 a.C. - só lhes restava, assim, a solução muito menos econômica de escrever em tecidos como a seda. E o tecido, naqueles tempos antigos, podia sair tão caro como uma pedra preciosa.

Provavelmente, o papel já existia na China desde o século II a.C., como indicam os restos num túmulo, na província de Shensi. Mas o fato é que somente no ano 105, o oficial da corte T'sai Lun anunciou ao imperador a sua invenção. Tratava-se, afinal, de um material muito mais barato do que a seda, preparado sobre uma tela de pano esticada por uma armação de bambu. Nessa superfície, vertia-se uma mistura aquosa de fibras maceradas de redes de pescar e cascas de árvores.

No ano 750, dois artesãos da China foram aprisionados pelos árabes, na antiga cidade de Samarcanda, aos pés das montanhas do Turquistão. A liberdade só lhes seria devolvida com uma condição - se eles ensinassem a fabricar o papel, que assim iniciou a sua viagem pelo mundo. No século X, foram construídos moinhos papeleiros em Córdoba, Espanha.

Os italianos da cidade de Fabriano começaram a fabricar papel, em 1268, à base de fibras de algodão e de linho, além de cola - substância que, ao envolver as fibras, tornava-as mais resistentes às penas metálicas com que escreviam os europeus. Quanto ao preço, no entanto, papel e pergaminho empatavam, pois era muito difícil conseguir roupas velhas para extrair a celulose.

Quando, na Renascimento, o advento da imprensa fez o consumo de papel aumentar terrivelmente, os ingleses chegaram a determinar que as pessoas só poderiam ser enterradas com trajes de lã, a fim de poupar os trapos de algodão, deixados como herança para os papeleiros. Até hoje o papel-moeda, por exemplo, não dispensa esse nobre ingrediente, que por ter fibras longuíssimas faz um produto difícil de rasgar.

Apenas em 1719, o entomologista René de Réaumur (1683-1757) sugeriu trocá-lo pela madeira. Ele observou vespas a construir ninhos com uma pasta feita a partir da mastigação de minúsculos pedaços de troncos.

Fontes: http://catarinameireles.no.sapo.pt; http://www.sitedecuriosidades.com.
Leia mais...