domingo, 9 de outubro de 2011

Lélia Abramo

Lélia Abramo, atriz, nasceu em São Paulo, SP, em 8 de fevereiro de 1911, e faleceu na mesma cidade, em 9 de abril de 2004. Intérprete de grandes recursos, envolvida em significativos movimentos a favor de um teatro culturalmente empenhado. Alia à sua atividade artística forte participação política e cultural.

Integrante da família Abramo, formada por jornalistas, pintores e críticos de arte, Lélia passa a infância em meio ao ambiente cultural, integrando grupos teatrais amadores de origem socialista.

É amiga do crítico de arte Mário Pedrosa, de quem partilha as idéias, tendo sido presa na Itália na luta contra Mussolini. De volta ao Brasil, reintegra-se ao movimento cultural, estreando profissionalmente no papel de Romana, a mãe de Eles Não Usam Black-Tie, peça de Gianfrancesco Guarnieri dirigida por José Renato, no Teatro de Arena, em 1958. Arrebata os prêmios Saci, Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT), e Governador do Estado de melhor atriz coadjuvante.

No ano seguinte, está em Gente como a Gente, direção de Augusto Boal, texto de Roberto Freire. Em 1960, destaca-se no papel-título de Mãe Coragem e Seus Filhos, polêmica montagem do texto de Bertolt Brecht por Alberto D'Aversa e produzida por Ruth Escobar.

No Teatro Cacilda Becker (TCB), participa de Raízes, de Arnold Wesker, direção de Antônio Abujamra; Os Rinocerontes, de Eugène Ionesco, com o comando de Walmor Chagas; e Oscar, de Claude Magnier, dirigido por Cacilda Becker, todas em 1961.

A partir de 1962, entra para o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), projetando-se em Yerma, de Federico García Lorca, direção de Antunes Filho, 1962; Os Ossos do Barão, encenação de Maurice Vaneau, 1963, e Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, 1964, mais um espetáculo de Antunes.

Boas oportunidades surgem em Os Espectros, de Henrik Ibsen, com o comando de Alberto D'Aversa, em 1965; e Lisístrata, A Greve do Sexo, novamente com Vaneau, agora numa produção de Ruth Escobar, 1967. Como Clitemnestra, na montagem de Maria José de Carvalho para Agamemnon, de Ésquilo, atinge novo ponto alto na carreira, 1968/1969.

Seu perfil trágico encontra novo realce como Margarida de Anjou, personagem de Ricardo III, de William Shakespeare, na encenação de Antunes Filho de 1975. Em chave altamente dramática cria Pozzo, o patrão de Esperando Godot, de Samuel Beckett, também direção de Antunes Filho com elenco totalmente feminino que destaca Eva Wilma e Lilian Lemmertz nos papéis centrais, 1976.

Afastada dos palcos durante muitos anos, dedica-se à causas políticas e culturais, ocupando o desempenho central de A Mãe, de Máximo Gorki, encenação de João das Neves, efetivada em 1985 com alunos da CAL - Casa das Artes de Laranjeiras, escola carioca de formação de atores.

Lélia possui intensa participação no cinema, com ênfase nos filmes Vereda da Salvação, 1963, O Caso dos Irmãos Naves, 1967; Joana, a Francesa, 1972, ao lado de Jeanne Moreau; O Sonho Não Acabou, 1980; Eles Não Usam Black-Tie, 1981; e Janete, 1982.

Na televisão possui longa e profícua participação, iniciada com A Muralha,1962, ao vivo, na TV Cultura, São Paulo; prosseguindo em diversas emissoras: Prisioneiro de um Sonho, 1964-1965, na TV Record, SP; Redenção, 1966, na TV Excelsior, SP; Nossa Filha Gabriela, 1971/1972, na TV Tupi, SP; e nas produções da Rede Globo Uma Rosa Com Amor, 1972/1973, e Os Ossos do Barão, 1973/1974.

Toda essa intensa participação na vida cultural brasileira está registrada em seu livro autobiográfico, lançado em 1997, Vida e Arte, onde reuniu reflexões sobre o ofício. Analisando sua trajetória, fixa o cenógrafo Gianni Ratto: "As circunstâncias profissionais da "gens theatralis" são quase sempre imprevisíveis; no caso de Lélia, a passagem por um grupo amador de língua italiana foi indiretamente responsável pelo convite que ela recebeu para atuar em Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, interpretação que confirmou nela, revelando-o aos outros, um talento do qual nunca tinha duvidado. [...] O que me parece extraordinário em Lélia é a capacidade que ela tem de coordenar uma visão estético-crítica que sempre norteará seu trabalho com a postura sociopolítica que até hoje não a abandona, e, o que mais me surpreende, é que em todas as suas atitudes, talvez sem percebê-lo, é luminosamente suprapartidária".

Fontes: Wikipedia; Enciclopédia Itaú Cultural - Teatro.
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sábado, 8 de outubro de 2011

Feitiço, o artista do bico

"O recurso do bico na bola caracteriza o jogador grosso e limitado. Verdade do futebol que só não se aplica quando o jogador em questão é Luís Matoso, o Feitiço. Artilheiro nato, dono de um futebol valente, com dribles curtos e arrancadas irresistíveis, Feitiço aplicava com muita arte seus sem-pulos de bico. Além disso, desferia cabeçadas fulminantes."

Luís Macedo Matoso, mais conhecido como Feitiço, nasceu em São Paulo em 29/12/1901, e faleceu na mesma cidade em 23/8/1985, jogava como centroavante no Santos entre os anos 1920 e 1930.

Foi definido pela revista Placar como um "centraovante raçudo, corajoso, de cabeçadas fulminantes e indefensáveis chutes de sem-pulo desferidos com o bico da chuteira". "Comecei a usar o bico da chuteira para me antecipar nas jogadas, dar mais velocidade e evitar o choque com o adversário", explicava. "Depois me acostumei, que até de bate-pronto eu dava de bico sem perder a direção que pretendia dar à bola."

Sendo as cabeçadas sua especialidade, tinha táticas como cabecear de cima para baixo, para o goleiro ter mais dificuldade, e pular depois do zagueiro que o marcava. O epíteto "artilheiro", usado até hoje, foi importado do Uruguai e usado pela primeira vez para laurear Feitiço.

Luís nasceu no Bixiga, no final do primeiro ano do século, e teve sua infância e juventude no bairro, onde começou a jogar futebol, aos dezesseis anos. Até então, seu esporte preferido era a bocha. Sem nada para fazer num domingo em que o dono das quadras manteve-as fechadas por luto, foi ver uma partida do Jaceguai, clube do Bixiga, e acabou convidado para defender o terceiro time.

Uma semana depois, de volta à bocha, só foi lembrar-se do futebol no final da partida do segundo time, mas, como o primeiro quadro estava sem ponta-esquerda, teve uma chance ali. "Parece que sei", foi sua resposta à pergunta do técnico se sabia jogar. Marcou três gols naquela partida.

O apelido "Feitiço" deve-se a uma menina que assistia aos jogos do centroavante e dizia que "o Luizinho parece um feitiço quando joga". Anos mais tarde, Feitiço contaria: "Sem saber, Nenela me deu um apelido que pegou e que me deu sorte para o resto da minha carreira."

Com sua fama crescendo, foi chamado para jogar no Ítalo-Lusitano, de Pinheiros, e lá também marcou três gols em sua estréia.

Com suas atuações na segunda divisão, ganhou o apelido de "El Tigre da Segunda Divisão", alusão ao apelido que Friendenreich tinha. Defendeu o Corinthians em um amistoso em 1921, marcando um gol.

Em 1922 foi para o São Bento, da capital paulista, atualmente extinto. Pouco depois quis voltar atrás para jogar no Palestra Itália, mas, segundo uma lenda popular, um dos diretores do São Bento, que era delegado, chamou-a à delegacia e ameaçou prendê-lo caso não honrasse o que tinha acertado.

Lá mais uma vez marcou três gols em seu primeiro jogo, contra o Minas Gerais, embora em sua estréia pelo Campeonato Paulista, contra o Palestra Itália em 4 de junho, tenha passado em branco. Seu primeiro gol oficial foi contra o Internacional, em 15 de junho, quando marcou três vezes no segundo tempo da goleada por 5 a 0.

Foi artilheiro do Campeonato Paulista em três temporadas (1923, 1924 e 1925). Em março de 1925 foi emprestado ao Palestra Itália para a primeira excursão internacional da história do clube, à Argentina e ao Uruguai. Foram quatro jogos e três gols marcados.

De volta ao São Bento para o Campeonato Paulista, ajudou o clube a sagrar-se campeão, o segundo e último título do clube da Praça da República — o primeiro tinha sido em 1914. Em 15 de maio, durante partida contra o Internacional, o São Bento sofreu um gol de Caetano, que marcou um gol "com bola e tudo". Feitiço parecia inconformado com o gol e, na primeira oportunidade que teve, fintou vários adversários e marcou o seu próprio "gol com bola e tudo", levando a torcida à loucura. A partida terminaria com vitória do São Bento por 3 a 2.

Em 1927, já no Santos, entraria para o famoso ataque dos cem gols formado por Osmar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista, que marcou cem gols em dezesseis partidas, obtendo assim uma média que até hoje é recorde mundial de gols marcados em uma competição oficial (6,25 gols por partida). Feitiço marcou gols nos onze primeiros jogos do time, inclusive com quatro gols na mesma partida por duas vezes e três gols em quatro oportunidades. Mas em seguida ele foi eliminado da APEA, por causa de um incidente no Rio de Janeiro.

O Campeonato Paulista fora interrompido para a disputa do Campeonato Brasileiro de Seleções estaduais. Na final, entre Rio de Janeiro e São Paulo, disputada em 13 de novembro, no Estádio São Januário, o placar estava empatado, com um tento pra cada lado. Aos 29 minutos do segundo tempo, o árbitro Ari Amarante marcou pênalti de Bianco a favor dos cariocas. Os jogadores da seleção paulista se revoltaram e paralisaram a partida.

O presidente da república, Washington Luis, que assistia à partida das tribunas, ordenou que a partida fosse reiniciada, mas Feitiço retrucou: "Diga ao presidente que ele manda no país. Na seleção paulista mandamos nós." O livro Todos os Jogos do Brasil atribui a frase ao atacante Amílcar. A partida acabou ali mesmo.

Ainda no vestiário, o presidente do Santos Guilherme Gonçalves, que também era presidente da APEA, anunciou à imprensa que Feitiço estava eliminado da liga, assim como o goleiro Tuffy.

Como o clube santista era conhecido na época como "Campeão da Técnica e da Disciplina", o presidente alegou a manutenção desse status, embora, segundo o livro Caminhos da Bola, de Rubens Ribeiro, a decisão tenha sido de cunho político, para a APEA compensar a decisão da CBD de nomeá-la como a liga principal do futebol paulista em disputa com a LAF.

O Santos encerrou o primeiro turno com doze vitórias e apenas uma derrota, para o Palestra Itália, na última das treze rodadas, já sem Feitiço. No quadrangular final o Santos bateu Guarani e Corinthians, mas perdeu para o Palestra e viu o título escapar, apesar dos exatos cem gols marcados, onze a mais que os palestrinos. Araken terminou como artilheiro da competição com 31 gols marcados, dois a mais que seu companheiro de ataque Feitiço, embora marcados em quatro partidas a mais.

A CBD só foi perdoá-lo em meados de 1928, mas o Santos não consentiu, avisou que ainda achava que era cedo demais e tentou transformar a pena de eliminação em suspensão por dois anos. A entidade nacional insistiu e passou a pressionar a APEA pela anistia, o que acabou ocorrendo, entretanto os jogadores puderam escolher o clube onde jogar. Tuffy foi para o Corinthians, mas Feitiço decidiu ficar em Santos.

O interesse da CBD era poder contar com Feitiço no amistoso da seleção brasileira contra o Motherwell, da Escócia, em junho. Nessa partida, a única da Seleção em 1928, Feitiço marcaria quatro gols.

No Paulista de 1928 marcou dez gols e ficou a seis do artilheiro Heitor, do Palestra Itália. Feitiço participou de dois dos três amistosos da seleção brasileira em 1929, contra o Barracas, da Argentina, em 6 de janeiro, e contra o Ferencváros, da Hungria, em 10 de julho, marcando um gol em cada jogo.

Voltou a sagrar-se artilheiro do Campeonato Paulista em 1929, com doze gols. Ele marcou mais um gol no segundo tempo da partida contra o Palestra Itália em 22 de setembro, mas todo aquele tempo foi desconsiderado pela APEA, pois o árbitro da partida passou mal no intervalo, sendo a segunda etapa dirigida por Urbano Caldeira.

Embora fosse o artilheiro do campeonato de 1929 e, alguns meses depois, também do de 1930 (com 37 gols em 26 jogos), Feitiço não esteve entre os catorze jogadores paulistas convocados pela CBD para os preparativos para a Copa do Mundo de 1930, no Uruguai. Provavelmente não teria feito diferença se ele tivesse sido convocado, pois uma divergência entre paulistas e cariocas fez com que o único paulista a representar a seleção brasileira naquele torneio fosse Araken, então brigado com o Santos.

Em 1931 seria artilheiro pela sexta vez, sendo a terceira consecutiva. Suas seis artilharias deixam-no atrás apenas de Pelé, artilheiro do Paulistão por onze vezes. Além disso, é hoje o quinto maior artilheiro da história do Santos, com 216 gols, além de ser o com a melhor média, 1,43.

No meio do campeonato, foi convocado para a seleção brasileira que disputaria a Copa Rio Branco contra o Uruguai. Entrou em campo com a camisa então branca da Seleção pela única vez em uma partida oficial, embora também a única de suas quatro atuações em que não marcou gol. Foram seis gols em seus quatro jogos pela Seleção.

Chegou ao Corinthians no final de 1932, disputando dez amistosos e um jogo oficial e mantendo uma média de um gol marcado por jogo. Em partida contra o Uberaba cobrou um pênalti propositalmente para o lado quando o placar já apontava 3 a 0.

Recebeu então uma proposta do Peñarol, do Uruguai, onde já havia futebol profissional, uma oferta tentadora que também foi aceita por Leônidas da Silva. Nesse período conquistou o Campeonato Uruguaio de 1935 e ainda tornou-se o primeiro estrangeiro a defender a Celeste Olímpica.

No Vasco da Gama ganhou o título de campeão carioca de 1936, seu segundo título estadual. Teve ainda uma passagem pelo Palestra Itália entre 1938 e 1940, encerrando a carreira no final desse ano, pelo São Cristóvão, do Rio de Janeiro. Ao todo, marcou mais de quatrocentos gols em sua carreira.

Mais tarde foi árbitro. Quando morreu era técnico de bocha do Clube Pinheiros.

Feitiço Atlético Clube

Na sua estada em Santos ele também ficou muito popular junto à torcida da cidade vizinha, São Vicente, popularidade essa que influenciou a criação de um dos clubes mais antigos do litoral paulista. Um grupo de jovens que começava a acompanhar o futebol se tornou fã desse jogador e fundou o Juvenil Feitiço, depois Feitiço Atlético Clube, em abril de 1928. Em 1950 esse clube passaria a ser chamado pelo nome da cidade.

Fontes: Wikipedia; Revista PLacar.
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Romeu, o homem-equipe

"Gordinho e meio careca, Romeu não tinha mesmo pinta de atleta. Foi, porém, um dos maiores craques dos gramados brasileiros. Jogador cerebral, dispunha de amplos recursos técnicos que usava exclusivamente em função do jogo de equipe. 'O drible tem hora certa. Fora disso, é falsa malandragem', ensinava. Começou a atuar como centroavante trombador, mas sua técnica apurada 1ogo o conduziu para a meia-direita. Vaidoso, costumava usar uma touca para esconder a calvície precoce."

Romeu Pellicciari, conhecido como Romeu, nasceu em Jundiaí, em 26/3/1911, e faleceu em São Paulo, em 15/7/1971. Descendente de italianos iniciou a carreira no  futebol em times amadores de Jundiaí, como o E. C. São João.

Em 1930, foi contratado pelo Palestra Itália, com quem foi tricampeão paulista em 1932, 1933 e 1934. Fez parte da Seleção Paulista bicampeã do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais de 1933 e 1934, disputando, ao todo, 165 jogos pelo alviverde, marcando 106 gols.

Palestra Itália - Bicampeão Paulista em 1933. Em pé: Junqueira, Volponi, Carneira, Tunga e Cambon. Agachados: Avelino, Gabardo, Nascimento, Romeu, Carrazzo e Imparato.

Seu futebol atraiu o Fluminense, que acabaria por contratar a base da Seleção Paulista para reforçar sua equipe. Gordinho e careca, jogava sempre com objetividade, mas com imenso repertório de dribles inesperados e lançamentos precisos. A sua jogada mais famosa era o "passo de ganso", atualmente conhecida como "pedalada". No tricolor carioca, jogou 201 partidas e marcou 106 gols.

Tricampeão carioca em 1936, 1937 e 1938, virou ídolo nacional e foi convocado para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1938, onde foi artilheiro e nome do jogo contra a Itália, campeã mundial naquele ano. Pelo Brasil, ao todo, foram 13 jogos e 3 gols.

Romeu, já no Fluminense
Sua atuação naquela competição fez surgirem muitas propostas de clubes europeus. Ele, porém, se manteve fiel ao Fluminense, onde ainda conquistaria o bicampeonato carioca de 1940 e 1941. No total, disputou 202 partidas e fez 90 gols como meia-armador do Tricolor carioca.

Em 1942, voltou para o Palmeiras e foi novamente campeão paulista naquele ano. A seguir, teve uma passagem pelo Comercial de Ribeirão Preto. Retornou então ao Palmeiras, onde encerrou sua exitosa carreira em 1947.

Apesar de ser filho de italianos, recusou várias propostas para se transferir para o futebol da Itália. Depois de abandonar os campos, montou uma cantina em São Paulo e não teve mais que se preocupar com a balança.

Fontes: Wikipedia; Revista Placar.
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