domingo, 16 de outubro de 2011

Escovas musicais

Americano inventa cada coisa legal, né? Tirante foguete, tudo que americano inventa é legal.

Vejam, por exemplo, a fita durex. Durante toda a história da humanidade o embrulho malfeito foi o horror dos que conduziam objetos debaixo do braço.

Vovô Clorofino — irmão de Tia Zulmira — uma vez passou um vexame no bonde de burro, por causa disso. Entrou, sentou do lado de uma senhora respeitabilíssima que era sua vizinha, e botou o embrulho no colo. Foi chato, o embrulho abriu e apareceram as ceroulas de flanela vermelha, que ele tinha comprado pro inverno.

Se, naquele tempo, já existisse fita durex, Vovô Clorofino não tinha passado pelo dissabor de ter a peça íntima olhada pela dama respeitável, que, segundo se dizia, nunca vira as ceroulas do próprio marido (quando Tia Zulmira conta esta história, Primo Altamirando costuma dizer: "Vai ver o marido não usava.")

Mas, voltemos aos inventos americanos. Agora mesmo eles vêm de inventar escova de dentes musical. Diz que é legal. Trata-se de uma escova que, quando a gente passa nos dentes, ela toca uma musiquinha, para tornar mais ameno o hábito da ablução bucal, se nos permitem o termo. A escova, inclusive, ensina o freguês a escovar os dentes, isto é, só toca a musiquinha se o cara escovar a dentadura no sentido vertical, que é como mandam os odontólogos.

Primo Altamirando, para escovar os dentes é mais duro que o time do Madureira para fazer gols no inimigo. Detesta escovar, Mirinho. Nestes últimos 36 anos, esta tem sido a grande luta de Tia Zulmira: fazer o nefando parente escovar os dentes de manhã.

Sabendo disso, mandamos vir dos Estados Unidos a tal escovinha com música e ontem fomos entregá-la à velha, lá no casarão da Boca do Mato. Explicamos como funcionava e esclarecemos que aquilo era uma esperança: talvez, com música, Mirinho escovasse os dentes:

Tia Zuzu suspirou e explicou que os americanos são práticos demais e, quando inventam as coisas, esquecem que existem pessoas excepcionais. E, num desabafo:

— Escova de dentes com música não vai fazer Mirinho mudar de hábito. Aquele cretino, além de porco, é surdo.

_____________________________________________________________________
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.
Leia mais...

As orelhas dos distintos

Noutro dia uma nota policial — e nós lemos noticiário policial com a mesma freqüência com que castigamos um Marcel Proust, um Leon Nikolayevich Tolstoi, uma Pomona Politis — dizia que determinada doméstica arrancara o nariz do marido, durante uma briga.

Não faz muito tempo, uma outra nota policial dizia que certa dama, ofendida em seus brios exclusivistas, aproveitou o fato de o distinto estar dormindo para lhe arrancar uma orelha, depois o nariz, assim sucessivamente foi arrancando tudo, fazendo do corpo do cônjuge um autêntico joguinho de mal-me-quer.

A notícia, entretanto, não informa se a última coisa arrancada deu bem-me-quer. Tomara que sim.

Agora é um telegrama de Teresina, companheiros. E diz assim: "Um exemplo inédito de ferocidade feminina (isto é bom... vamos repetir: ferocidade feminina) ocorreu nesta Capital, quando Maria Divina, rústica e incontida em seus ciúmes matrimoniais, resolveu castigar de uma vez por todas o seu marido, um Don Juan perigoso".

E prossegue a nota explicando que Maria Divina, armada de uma faca, depois de violento entrevero com o esposo, cortou-lhe as orelhas, informando-o, em seguida, de que podia ir sacudir as penas noutros pombais, porque ela ia dar no pé, levando as crianças.

Ato contínuo — queiram perdoar, mas a expressão ainda é do telegrama — Maria Divina abandonou o lar, após botar as crianças debaixo de um braço e as orelhas debaixo do outro.

O desorelhado, quando socorrido num posto médico, explicou tudo isso às autoridades, que saíram atrás de Maria Divina, não somente para prendê-la, mas também para explicar a ela que não era tão Divina assim, fazendo essas coisas. O telegrama termina dizendo que os filhos do casal foram localizados na casa de uma parenta onde a desorelhadora os deixara, para ir buscar um dia destes.

Quanto à Maria Divina, fugiu (o telegrama diz escafedeu-se... mas, sabem como é, o verbo escafeder não é literariamente dos mais cheirosos e, portanto, não fica bem num livro cheio de bacanidades, como é este que ora lêem)... fugiu — dizíamos — "levando consigo as orelhas do infiel numa bolsa de feira, dizendo a todos que levava as orelhas do marido para mostrar a qualquer outro que tentasse enganá-la".

Você aí, sente o drama, vá.

O marido, lá no posto médico, com sua cabeça chata mais arredondada pouquinha coisa por falta de pavilhões auriculares, enquanto suas orelhas passeiam pelo interior do Piauí, numa bolsa de feira.

Quando adiantam à "fera de Teresina" (este apelido é uma homenagem nossa aos coleguinhas da crônica policial) as orelhas do ex-marido?

Primeiro, que não vão durar muito. Uma cabeça sem orelhas ainda vá, mas orelhas sem cabeça estragam logo. Vejam — por exemplo — as orelhas de Jeff Thomas. São bambas, moles, provavelmente estragadas, pois o dono delas não tem cabeça.

Ponderemos também que a justificativa de Maria Divina não procede. Que adianta ela exibir o seu troféu do ato matrimonial anterior, se marido, quando dá pra sem-vergonha, não respeita nem filho pequeno, quanto mais a orelha dos outros? Só se ela é puxada para o masoquismo e carrega consigo as orelhas do marido para lembrar sempre a traição e sofrer as picadas contumazes que elas costumam desferir no amor-próprio dos que se sabem traídos. Mas nem para atestado de esposa enganada elas servem.

Maria Divina não precisa documentação. Em sociedade tudo se sabe.

E, já que falamos em sociedade, Deus permita que a moda lançada por Maria Divina, em Teresina, não pegue aqui no Rio, entre as senhoras enganadas e enganadoras do "café society".

Vocês já pensaram se elas resolvessem arrancar as orelhas dos maridos traidores?

Dentro de muito pouco tempo, raro seria o grã-fino casado aqui desta Buracap que poderia usar óculos, por falta de apoio pra a armação.
_____________________________________________________________________
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.
Leia mais...

O massacre de 1950

O melhor jogador da partida: Zizinho
Quando o Bangu goleou o Canto do Rio por 5 a 0 pela primeira rodada do Campeonato Carioca de 1950, ninguém deu muita bola. Afinal, o time de Niterói era um tradicional "saco de pancadas" das equipes do Rio. Ao mesmo tempo, surpreendeu a crônica esportiva, o fato de o Madureira ter batido o Flamengo por 1 a 0, na Gávea.

Para a segunda rodada, o Bangu entrou como favorito no confronto contra o Flamengo, no Maracanã. Havia também um novo ingrediente: Zizinho jogaria contra seu ex-clube. A história contada de diversas maneiras mostra sempre um Zizinho negociado sem seu conhecimento, numa espécie de "aposta" entre o presidente rubro-negro Dario de Melo Pinto e o patrono alvirrubro Guilherme da Silveira Filho.

A transação magoou o "Mestre Ziza" que, ao saber que Silveirinha tinha pago 800 mil réis pelo seu passe, disse assim: "Se o senhor pagou tanto dinheiro assim, é porque valoriza meu futebol. De hoje em diante, sou Bangu e não jogo mais pelo lamengo".

Além de não jogar mais pelo clube da Gávea, passou a ser tradição: sempre que os times se enfrentavam, Zizinho dava o máximo, se esforçava absurdamente, só para mostrar o seu real valor aos dirigentes rubro-negros.

Mais de 42 mil pessoas foram prestigiar o clássico naquele domingo, 20 de agosto de 1950. O resultado final, como já era esperado, foi uma vitória do Bangu. O que ninguém podia acreditar era a elasticidade do placar. Os "Milionários de Moça Bonita" tinham feito 6 gols no "Mengo". A goleada de 6 a 0 foi a maior de todos os tempos aplicada pelos suburbanos no clube da Gávea.

Uma partida que entrou para a história do Maracanã, que só mesmo o público presente ao estádio naquela tarde ou quem escutou a narração pelas ondas do rádio puderam comprovar: "sim, houve um dia que o Bangu fez 6 a 0 no Flamengo". Ao final do 1º tempo, o time já vencia por 3 a 0, com dois gols de Moacir Bueno e um de Sula, cobrando pênalti. Na segunda etapa, Zizinho fez o quarto, de falta; Joel o quinto, de cabeça; e Simões fechou a "tampa do caixão".

Antes do massacre, o time banguense posa para a foto oficial: Mirim, Pinguela, Rafanelli, Luiz Borracha, Sula e Guálter. Agachados: Djalma, Zizinho, Joel, Simões e Moacir Bueno.
Fato curioso ocorreu quando Zizinho encontrou sua mãe após o jogo. A velha senhora reclamou do massacre: "Você, hein? Estava 3 a 0 e você ainda fez um gol?" O craque respondeu com bom humor: "Eu queria ganhar! Se eu pudesse fazer dez, eu teria feito!"

A goleada colocava o Bangu na liderança do Campeonato Carioca de 1950 e jogava o Fla para a lanterna da competição.

Ficha do jogo

Domingo, 20 de agosto de 1950 - Bangu 6x0 Flamengo - Competição: Campeonato Carioca - Local: Maracanã - Juiz: Alberto da Gama Malcher - Público: 42.831;  Bangu: Luiz Borracha, Rafanelli e Sula; Guálter, Mirim e Pinguela; Djalma, Zizinho, Joel, Simões e Moacir Bueno. Técnico: Aymoré Moreira; Flamengo: Garcia, Biguá e Juvenal; Bria, Válter e Bigode; Aloísio, Hermes, Hélio, Lero e Esquerdinha. Técnico: Jayme da Almeida;  Gols: No 1º tempo: Moacir Bueno, Moacir Bueno e Sula (pên.). No 2º tempo: Zizinho, Joel.

Avaliações Individuais

Luiz Borracha - Foi empenhado, a rigor, somente uma vez com perigo. Foi num chute de Hermes, que ele agarrou com firmeza;  Rafanelli - Surgiu como uma das grandes figuras do embate, brilhando intensamente; Sula - Essa promessa que surge, cumpriu trabalho exato, à altura do valor do quadro; Mirim - Muito bom. Distribuiu e defendeu cem por cento bem; Pinguela - Foi um dos grandes homens em campo. Está em grande forma e será neste Campeonato uma das figuras mais salientes; Guálter - Firme na marcação e preciso nos despachos; Djalma - Manobrou para o conjunto, aparecendo pouco aos olhos do público, mas rendendo muito; Zizinho - Uma vez mais foi o motor banguense. Um portento, tal como nos jogos da Copa do Mundo; Joel - Foi um centroavante inteligente e quando passou para a extrema esquerda não decaiu, ao contrário, manteve o ritmo; Simões - Desenvolveu seu trabalho com requintada precisão; Moacir Bueno - Foi um constante perigo para Garcia.

A frase

"Esse foi o troco que eu dei a eles. Metemos 6 a 0. Foi a única partida que minha mãe me viu jogar. Quase me bateu na saída. Ela disse: 'Você, hein? Estava 3 a 0 e você ainda fez um gol?'. Eu queria ganhar. Se eu pudesse fazer dez, eu teria feito."  Zizinho (Eleito o melhor em campo pela imprensa)

A mais obscura jornada do Flamengo

"Uma das mais obscuras jornadas da vida do Clube de Regatas do Flamengo foi cumprida na tarde de domingo, no Maracanã, pela equipe rubro-negra. Apresentando em campo um team verdadeiramente desconexo, incorrendo ainda no erro de uma aventura, que foi o lançamento precipitado de Hermes, o Flamengo emudeceu os olhos de sua torcida, caindo por uma contagem que atinge tremendamente o prestigio do clube da Gávea.

Para o Flamengo, este Campeonato está com o "teto zero", para usarmos uma expressão da aviação. Não há visibilidade, não há horizontes para o rubro-negro. Sua administração colhe os frutos de haver cuidado mais da política do que da própria expressão do quadro para o Campeonato da cidade.

O Bangu quis cuidar, única e exclusivamente, de si mesmo, do seu quadro, que um bom quadro de profissionais é o melhor reflexo de um clube. O Bangu já está vendo que a frase popular - "plantando dá" - tem total razão de ser. A vitória de domingo, precisamente sobre um dos chamados "grandes" veio comprovar que não são vãos os esforços de seus responsáveis e que jamais serão vãs as tarefas construtivas em qualquer setor da vida.

Está de parabéns o Bangu pela sua estupenda vitória. Vitória que veio como efeito natural do amplo domínio exercido pelo seu conjunto, cujas manobras táticas foram perfeitas e cujo padrão de jogo é o que se pode exigir de um grande esquadrão. A sua linha média foi precisamente aquilo que o Flamengo não pôde ser, uma peça de vai e vem dentro da equipe, o traço de união entre as ultimas linhas e a vanguarda. Defenderam os três intermediários banguenses com a mesma maestria e firmeza com que nunca deixaram seu trio final desprotegido e o ataque jamais deixou de contar com seu apoio. A harmonia da equipe residiu mais nesse particular. E o desequilíbrio do team rubro-negro esteve antagonicamente, no fato da linha média jamais ter apoiado ou defendido com acerto." (Revista Esporte Ilustrado, 24 de agosto de 1950)

Fonte: www.bangunet.net/novidades
Leia mais...