quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os defuntos literários

Todo mundo já ganhou o prêmio Nobel, menos o brasileiro. Não me venham falar em subdesenvolvimento. O Chile e a Nicarágua são mais subdesenvolvidos do que o Brasil. E ambos têm o seu prêmio Nobel. Há quem diga: — "A Nicarágua não existe". Sei lá. Mas, exista ou não, eis a verdade: — existe para a Academia Sueca. O Brasil, não.

E nem importa a nossa tremenda extensão territorial. Este país é uma espécie de elefante geográfico. Mas a Academia Sueca olha para cá e não vê ninguém. Portanto, existimos menos do que a Nicarágua. Mas é uma injustiça. Temos uma massa de intelectuais.

Numericamente, não estamos atrás de ninguém, nem da União Soviética. Na Rússia há, registrados, seis mil e tantos escritores (e o sujeito que não foi registrado não é escritor. Mesmo que tenha escrito A divina comédia, não é escritor). Pode parecer que, numericamente, a União Soviética está na frente do Estados Unidos. Dos Estados Unidos, talvez. Do Brasil, não.

Vocês se lembram da última passeata. Antes do desfile, fui ver a concentração. Levei comigo o Raul Brandão, pintor de grã-finas e igrejas. E espiamos o espaço reservado aos intelectuais. Parecia uma massa de Fla-Flu. Jamais nos ocorrera que a inteligência brasileira fosse tão abundante. No seu horror, o Raul Brandão perguntava: — "Tudo isso é intelectual?".

Fomos olhar outra vez a tabuleta. Lá estava escrito, acima de qualquer dúvida ou sofisma: — "Intelectuais".

Portanto, os intelectuais eram intelectuais. E, então, passo a passo, tratamos de identificar os nossos poetas, os nossos romancistas, os nossos ensaístas, os nossos dramaturgos, os nossos sociólogos, os nossos professores. Eis a lamentável e quase grotesca verdade: — depois de buscas ingentes, não identificamos ninguém. Ninguém? Isso mesmo: — ninguém.

No meio de 20 mil sujeitos, não havia uma cara conhecida.

De repente, o Raul Brandão crispa a mão no meu braço; sussurra: — "Acho que vi a Nara Leão!". O "acho" insinuava uma dúvida. A Nara Leão pode não ser a Nara Leão. Talvez parecida e não a própria. Pergunto: — "Cadê?".

O Raul Brandão procura, procura, e tem de admitir: — "Sumiu". E, então, começamos a reexaminar as caras. (Quem devia estar ali era a Academia Sueca, apalpando, farejando, a literatura brasileira). Se pose é um dado válido, todo mundo ali era Proust, era Joyce, era Balzac, era Cervantes. Uns ficavam de perfil, outros de frente, outros de três quartos, outros punham as mãos nas cadeiras. Atrás de mim, o Raul Brandão gemia: — "Como são inteligentes!". Eram, sim, inteligentíssimos.

Os idiotas da objetividade poderão insinuar que são autores sem um livro, poetas sem uma quadrinha de São João, ensaístas que não lêem, não escrevem, nem pensam. Não importa. A abundância numérica os salva. Enquanto a União Soviética só consegue juntar escassamente 6 mil escritores, o Brasil pode retrucar com 20 mil.

Dirá alguém que toda a literatura soviética atual não merece amarrar os sapatos de Dostoievski. Como não sou crítico literário, deixo de opinar. Mas continua de pé a pergunta humilhante: — por que, com tantos autores, o Brasil jamais foi contemplado com um prêmio Nobel? Não obstante o subdesenvolvimento, que explica tudo, temos campeões mundiais no futebol, no basquete, no hipismo, no tênis, na pesca submarina, no iatismo.

Nas exposições de gado, temos vacas premiadas. As nossas caixas de fósforos ganham medalhas. Se houver um campeonato de cuspe à distância, um moleque nosso há de vencê-lo. Ainda na semana passada, o nosso Botafogo, com três enxertos, goleou de 4 x 1 a grande seleção argentina. Vitória com olé. Fizemos um gol, o último, de oitenta passes. Mas repito: — por que até as vacas, até as caixas de fósforos brasileiras são premiadas, e os escritores, não?

Foi esta, mais ou menos, a pergunta que fiz a um amigo, justamente um dos idiotas da objetividade. Ele vira-se para mim e pergunta: — "Ou não percebeste que a literatura brasileira não escreve mais?". Tomo um susto: — "É literatura e não escreve?".

Exatamente: — a literatura brasileira é literatura, mas não escreve uma linha, uma frase, um verso, nada. Há, por todo o Brasil, um ensurdecedor silêncio literário.

Esbugalhado, perguntei: — "E que faz a literatura brasileira?".

Retruca o idiota da objetividade: — "Faz passeatas".

Todavia, não aceitei a morte literária do Brasil. Corri à Biblioteca Nacional. E tive a crudelíssima surpresa: — o nosso último suplemento literário fechou as portas na abertura dos portos. Volto ao idiota da objetividade; disse-lhe: — "Mas tínhamos um crítico, rapaz de talento, o Álvaro Lins".

E o outro: — "É anterior a José Veríssimo, Araripe Júnior, Sílvio Romero. Álvaro Lins é a nossa maior antigüidade crítica".

Posto diante da evidência objetiva e estarrecedora, acabei por me convencer. Quando se travou a primeira batalha do Marne, e os táxis de Paris salvaram a França, que fazia, aqui, o José Veríssimo?

Fazia crítica literária, indiferente ao mundo que morria, indiferente ao mundo que nascia. E, sem querer, falei num bilíssimo gênero literário: — a crítica. No passado, um jornal podia abrir mão de tudo, menos do seu crítico. E quando aqui desembarcou d. João VI, enxotado por Napoleão, já encontrou o Álvaro Lins, no cais, à sua espera. El Rey perguntou, num gesto largo: — "Como vai o meu caro rodapé?". E o rodapé, baixando a vista, escarlate de modéstia: — "Caprichando, majestade, caprichando!". Foi divino.

Mas tudo isso acontecia antes das passeatas. O último óbito literário, que se conhece, foi o suplemento concretista do Jornal do Brasil. Aí morreu a nossa literatura. O leitor, que é de uma inocência obtusa, há de perguntar: — e por quê?

Resposta: — Morreu porque se politizou. Veio o Vietnã. E, por último, explodiram as passeatas.

Assim como há o padre de passeata, há o escritor de passeata. São os tais estilistas sem uma frase, os tais poetas sem uma metáfora etc. etc. E, súbito, os nossos cafés, bares e boates se povoaram de defuntos literários. Outro dia, no Antonio's, vi um tão defunto que usava algodão nas narinas. Orai por ele.

Temos, ainda, a grã-fina de passeata. No seu guarda-vestidos há 1500 decotes. Já quando houve, na França, a jovem revolução, o marido da grã-fina sentiu-se ameaçado como se fosse o próprio De Gaulle. E, de repente, começa aqui a imitação francesa. Até que um dia a grã-fina diz que vai à passeata. O marido perdeu a esportiva: — "Está maluca? Bebeu?".

A mulher, que só fazia massagem com um copo de cerveja na mesinha, reagiu como "La Pasionaria": — "Eu não sou reaça como você!". O marido tratou de provar-lhe, didaticamente, que a passeata era contra os 1500 decotes. Ela não se convencia, nem a tiro; e, por fim, o marido propôs: — "Vou lá espiar e depois te digo". Assim se fez. O homem viu e, inclusive, participou da marcha até a Candelária. Não descobriu um preto, um operário, um salário-mínimo, mas viu, em compensação, todas as grã-finas da cidade. Voltou convencido de que eram as classes dominantes que desfilavam, sob a chuva de listas telefônicas. Disse à mulher: — "Pode ir à próxima".

Os 1500 decotes estavam salvos.

[13/8/1968]

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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Praia Grande




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Zulmira e o poeta

A velha ermitã está danada com a bisbilhotice minha, que aliás foi motivada por bisbilhotice maior, do coleguinha Paulo Mendes Campos. Deu-se que eu estava aqui posto em sossego, com a minha possante Telefunken ligada, a ouvir a Sonata para violino em sol menor, de Claude Debussy, na execução de Arthur Grumiaux, acompanhado ao piano por Istvan Hajdu, quando, ainda no primeiro movimento, isto é, o "Allegro vivo", tocou o telefone.

Era o Paulinho Mendes Campos que, logo de saída, veio com uma estranha pergunta:

— Onde estava sua Tia Zulmira em 1911?

Fiz um esforço de memória e respondi: — Estava na Europa, ministrando um curso de francês na Sorbonne e era a vedeta do "Follies Bergère".

Foi então que o Paulinho, do outro lado do fio, permitiu-se uma exclamação de regozijo e me perguntou se eu não achava muito estranha a coincidência, pois mais de uma vez, em seus poemas, o parnasiano Raimundo cita o nome de Zulmira. Aliás, devo explicar aos caros leitores, que era uma velha cisma nossa — minha e do Mendes Campos — achar que a sábia senhora foi cacho do poeta das pombas.

Claro que tia Zulmira sempre negou o fato, quando cuidadosamente inquirida pelo sobrinho dileto, mas nem por isso nossa cisma diminuiu. É só dar uma passada na obra de Raimundo Correia para reparar que há versos e mais versos que só podiam ser inspirados pela ermitã bocadomatense. Senão, vejamos: em "Sonho turco", o poeta mete lá:

"Mulheres e cavalos com fartura, Bons cavalos e esplêndidas mulheres".

Isso só pode ser coisa da velha que nunca escondeu amar nos homens os exageros amorosos. No mesmo poema, inclusive, há  outro verso que cheira a coisa de titia:

"Como polígamo e amoroso galo
A asa arrastando a inúmeras esposas
Nem sabe qual prefira".

É verdade que, na biografia de Zulmira, Raimundo Correia não aparece como um dos seus maridos legais (legais no sentido jurídico da palavra, pois de vários Tia Zulmira tem queixas quanto ao principal), mas já não parece haver dúvida quanto a um caso havido entre os dois, provavelmente num recanto qualquer da Europa: na alegre Paris, na austera Londres, ou na sossegada
Amsterdão.

Vejam esta passagem:

"Que, das três coisas, uma só nos basta: — Tocar viola, fumar cachimbo ou dormir".

E aquele, ainda: "São fidalgos que voltam da caçada" (verso que Zulmira costuma evocar, quando vê os grã-finos bêbados, voltando do "Sacha's"). Ou este outro: "Que o amor não é completamente cego". Ainda mais este: "Que aos tristes o menor prazer assusta".

Todo esse material foi colhido pelo Paulinho para me convencer que Tia Zulmira realmente influenciou Raimundo Correia. Mas agora vinha com a prova definitiva.

Pigarreou no telefone e falou: — Vou te recitar um soneto de Raimundo Correia que acabo de descobrir num livro dele. Tua cara vai cair, companheiro. E lascou esta preciosidade:

Quando Zulmira se casou... Zulmira
Era o mimo, a frescura, a mocidade!
— lânguido gesto, estranha suavidade
Na voz — soluço de inefável lira;
Um candor, que não há quem não prefira
A tudo, e esse ar de angélica bondade,
Que embelece a mulher, mesmo na idade
Em que, esquiva, a beleza se retira.
Não sei porque chorando toda a gente,
Quando Zulmira se casou, estava:
Belo era o noivo... que razões havia?
A mãe e a irmã choravam tristemente;
Só o pai de Zulmira não chorava...
E era o pai afinal quem mais sofria.

Ora, isto é mais definitivo ainda quando se sabe que o pai de titia tinha nela a filha favorita e também quando se sabe que Yayá (irmã de Zulmira) e Vovó Eponina (sua mãe) eram duas manteigas derretidas. Agradeci ao Paulinho a descoberta do soneto. Desliguei o telefone e liguei para Tia Zulmira, recitando-o para ela. Titia ficou muda do lado de lá e se traiu para sempre quando, a uma insinuação minha de que tivera um troço com o "poeta das pombas", exclamou irritada:

— "Ele não era tão das pombas assim como se propala".
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: GAROTO LINHA DURA - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975
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