domingo, 28 de agosto de 2011

O inferno

Quando ela disse que tinha um filho, um garoto, já de doze anos, Romualdo caiu das nuvens:

— Filho?

— Você não sabia?

Foi enfático:

— Nem desconfiava.

E ela:

— Pois tenho. Fez doze anos, está no colégio.

— Engraçado!

— Por quê?

Ele foi, então, gentilíssimo. Disse que ela não parecia mãe de ninguém e muito menos de um garoto, quase rapaz. E, na verdade, a idade do menino o espantara. Lucília, com seu tipo frágil e pequeno, o ar de menina, um quê de infantil nos olhos, no sorriso, nas maneiras, parecia uma garota solteirinha. E não foi somente de espanto a sua reação. Experimentou também um certo alarme. Aquele filho, aquele marmanjo, inesperado e taludo, assustava. Foi, porém, bastante hábil e educado para dissimular o desconforto e bastante cínico para a seguinte promessa:

— Vou ser para ele um segundo pai!

— Deus me livre!

— Como?

Lucília suspirou:

— Eu te explico. Vamos entrar ali, um momentinho.

O FILHO

Entraram numa sorveteria. Depois de sentados e servidos, ela foi tomando sorvete e explicando.

— O Odésio não pode saber, nem desconfiar.

Esta era uma condição que ela impunha. Ou ele aceitava ou, então, nada feito. Romualdo ainda ponderou:

— Acho que você exagera!

— Ora, Romualdo, tem dó! Você se esquece que é casado, que vive com outra, que tem filhos, esquece?

— Realmente.

— Pois é, meu filho, pois é!

Eram seis horas quando Romualdo a largou, num ônibus apinhadíssimo. Ela fez a viagem em pé. A promiscuidade, ali, era uma coisa abjeta. Espremida, imprensada, triturada em meio dos passageiros, teve uma sensação de ultraje, de profanação, de aviltamento. Um cavalheiro que ia saltar no poste seguinte foi varando a massa humana; ao passar por ela quase a derruba. A sensação do ultraje recrudesceu em Lucília. Resmungou:

— Animal!

Mas ia bastante atribulada com seus problemas. E não ligou mais para os contatos indesejados e brutais que, nos ônibus cheios, são inevitáveis. O drama de Lucília era, em suma, o seguinte: o medo, o pavor, de que o filho enfim soubesse... A opinião, o julgamento do garoto era a coisa que mais a impressionava no mundo. Temia-o mais do que o Juízo Final. Ao mesmo tempo, tinha loucura por Romualdo e a vida sem ele seria de uma monotonia medonha. Pendurada no ônibus, gemeu interiormente:

— Oh! meu Deus do céu!

HISTÓRIA DE AMOR

Então, começou a mais doce, a mais sofrida história de amor. Voltava dos seus encontros com Romualdo em sobressalto. O filho estava sempre na rua, jogando bola ou em brincadeiras turbulentas com amigos de sua idade. Uma vez, deu um chute, e com tanta infelicidade, que a unha do dedo grande do pé saltou longe. O negócio inflamou; e Lucília, quando chegou de uma entrevista amorosa, tomou-se de vergonha e de remorso. Pensou, lavando o pé machucado: enquanto ela se divertia com um homem, além do mais casado, o filho, sozinho, estava precisando de seus cuidados. Vamos que fosse uma coisa pior que um simples esfolamento de dedo. Que remorsos não sentiria? O menino, corajoso, quase não se queixava. E era ela quem tinha de perguntar:

— Está doendo?

— Mais ou menos.

E Lucília:

— Quando estiver doendo, diga!

No dia seguinte, Lucília apareceu triste. Suspirava:

— Que vida!

Romualdo acabou se enfezando:

— Que vida, por quê?

Ela, então, pôs as cartas na mesa:

— Reconheço que a culpada sou eu, porque você, sendo casado, eu não devia... Romualdo, não está direito.

Fez uma pausa, antes de completar:

— Se, ao menos, você vivesse só pra mim!

Foi brutal:

— Ora, Lucília, ora! No mínimo, você está querendo que eu deixe minha mulher! Sou capaz de apostar!

Despediram-se sem carinho. E ele, ressentido, mal se deixou beijar. Disse, apenas:

— Vai com Deus, vai!

Nessa noite, ele fez confidências a um amigo. Quando este soube que havia um filho no meio, um marmanjão de doze anos, foi categórico:

— Abacaxi autêntico!

E Romualdo insistiu:

— Você não acha um desaforo que ela queira, imagine, que eu deixe minha mulher?

— Evidente!

No primeiro encontro, Romualdo rompeu fogo:

— Das duas uma: ou você muda de cara, faz uma cara alegre, ou, então, minha filha, vamos acabar com esse negócio. Já não estou gostando, nada, nada!

Já o termo negócio pareceu a Lucília de uma abominável grosseria, de um prosaísmo ultrajante. Além disso, a agressividade, como se ela fosse uma qualquer!
Exaltou-se, também:

— Não grite! Está pensando que eu sou o quê?

— Grito, pronto, grito! Não topo chiquê! Comigo, não!

Ela não disse uma, nem duas. Apanhou a bolsa, que estava em cima da mesa: olhou-se, instintivamente, no pequeno espelho; e, num passo lento, encaminhou-se para a porta. Parou um segundo, uma fração de segundo. Esperava talvez que Romualdo a chamasse. Teria, então, voltado e tudo terminaria numa reconciliação feroz. Mas ele esbravejou:

— Mulheres é que não faltam, inclusive a minha! Podia haver pontapé mais claro, mais insofismável, mais absoluto? Saiu para nunca mais.

O ABANDONO

Ela tinha do próprio casamento e do marido morto uma lembrança penosa. O marido era uma nobre alma, que vivia para a esposa e para o filho. Mas tudo que ele fizesse, de bom, de heróico, de sublime, esbarrava diante de sua falta de amor. E isso, essa falta de amor, era pior do que o ódio. Crispava-se quando o pobre-diabo vinha fazer-lhe festa. Houve uma vez em que não pôde, não agüentou, explodindo:

— Não me beija! Não quero seu beijo! Que coisa aborrecida!

Ele já estava doente, na ocasião. Foi talvez este episódio que antecipou o fim.

Seis meses depois, ela, sem nenhum luto interior, tinha a sua primeira experiência amorosa, na pessoa do casado Romualdo. Viu, então, que o marido a interessava menos que o mata-mosquito anônimo que vinha pôr creolina no ralo. Foi uma paixão feroz que acabou, como vimos, da maneira mais estúpida do mundo.

Durante dias, Lucília, numa tristeza obtusa, esperou um telefonema, um bilhete, um recado. Nada, absolutamente nada. Depois soube, por terceiros, que ele andava com uma datilógrafa extranumerária numa autarquia; tinham sido vistos no Passeio Público, onde tiravam retratos no lambe-lambe. Lucília, fora de si, encerrava-se no quarto, ficava horas de bruços, na cama, chorando. Já o julgamento do filho não a interessava mais. O garoto, diante do seu pranto, perguntava:

— Que é que a senhora tem, mamãe?

— Não aborrece! Não amola! Sai daqui, anda!

Na presença do filho, ligava para o escritório do bem-amado. De lá, queriam saber quem era.

Lucília se identificava. Então, a resposta infalível era: “Não está”. Uma vez, porém, coincidiu que o próprio atendesse. Mas, quando percebeu que era ela, explodiu:

— Me deixa em paz, sim? Quero sossego! Vê se não me chateia.

O filho não fazia comentário. Era uma testemunha muda de tudo. Guardara, porém, o nome e o repetia: “Romualdo, Romualdo”. Conhecia-o, de vista. Pensava nele dia e noite, com essa obstinação de amor ou de ódio. E já não saía mais de casa, não jogava mais bola; passava as horas ao lado de Lucília, de olhos muito abertos, como se esse desespero o fascinasse, apesar de tudo. Ouviu quando a mãe, numa crise maior, amaldiçoou o homem que a abandonara:

— Tomara que ele morra, meu Deus! Fique debaixo de um automóvel! Tomara, meu Deus!

Por fim, ela já não queria mais nada; ou, por outra, queria morrer. Não comia e seu desmazelo, de atitudes, de roupas, de higiene, era aterrador. Passava dias com uma mesma combinação. Outras vezes, do fundo do seu desespero, fazia a reflexão: “Há três dias que não escovo os dentes”. O filho se abraçava a ela. Chorava:

— Não fique assim, mamãe! Não chore mais!

Certa vez, na rua, o garoto ouviu dizer que não se nega nada a quem está morrendo, a quem vai morrer. O “último” pedido de alguém, justamente por ser o “último”, é alguma coisa de terrível e sagrado, que cumpre obedecer, sob pena de maldições tremendas.

Então, afirmou:

— Ele volta, mamãe! Volta, sim! Juro por Deus!

A VOLTA

Romualdo estava, no poste, esperando o ônibus. O garoto desconhecido aproximou-se e disse que era filho de d. Lucília e falou mais:

— Volta para minha mãe. É meu “último” pedido.

Romualdo não entendeu. Ou só entendeu quando o menino se atirou debaixo de um ônibus que passava a toda a velocidade. A morte foi instantânea.

Alta madrugada apareceu mais alguém para fazer quarto ao menino: era o assombrado, o enlouquecido Romualdo. Voltava, sim. E continuou voltando, escravo do “último pedido” de uma criança. Quando, finalmente, ela se cansou dele e quis deixá-lo, Romualdo lembrou, apenas, o desejo do menino. Então Lucília compreendeu que estavam unidos, e para sempre, dentro de um inferno.
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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
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Deus os protege

O cara chega em casa bêbado como uma cabaça na água. E a sua mulher furiosa grita:

- Foi bebê né ?

E ele num porre, só responde também gritando:

- Fui sim! Eu fui bebê, fui adolescente, fui jovem e hoje sou um véio cansado de você, muié!!

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O bêbado entra em um velório, cantando parabéns:

-Parabéns pra você, nesta data queridaaa!

Mas logo é reprendido na entrada da casa:

-Moço, que isso? Isso não é aniversario, isso aqui é um velório!

-Por isso que desconfiei! Nunca tinha visto um bolo tao grande!

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O bêbado passou a noite toda ligando pra casa do dono do bar:

- Que hora você vai abrir o bar?

O dono:

- Mas rapaz, você já ligou mais de 100 vezes! Só vou abrir as 9 horas.

O bêbado respondeu:

- É porque você me deixou preso no bar e não tem mais nenhuma pinga pra mim tomar.

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No mesmo bar, o bêbado se aproxima de uma mesa onde se encontravam dois rapazes muito parecidos:

- Viiige! Acho que estou vendo demais!!

Ao que um dos rapazes, apressou-se em esclarecer:

- Não tem nada de errado contigo, não! É que nós somos gêmeos!

- Todos os quatro?

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O camarada saiu do bar, completamente bêbado.

Cambaleou de um lado a outro, escorando nas paredes. Caminhou mais um pouco e parou em frente a uma freira, que lhe sorriu com profunda piedade. Ele olhou para ela, bem nos olhos, e deu-lhe um soco no meio da testa. A mulher saiu rolando pelo chão e caiu, desmaiada. O bêbado ficou parado, olhando aquele monte de pano atirado na calçada. Balançou mais um pouco, pra frente e pra trás, e reclamou, revoltado:

- Que decepção! Esperava mais de você Batman!

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Um bêbado chato entra num bar e pede pro balconista:

- Ô amigo, coloca duas aí. Uma pra mim e outra pra você.

O balconista que era o dono do bar responde:

- Só para o senhor. Eu não bebo.

- Vai fazer essa desfeita comigo amigo? Eu não bebo sozinho! Bota duas aí e bebe comigo!

O cara pra se ver livre do bêbado, coloca as duas doses. Eles tomam e o bêbado fala:

- Ó amigo, amanhã eu venho aqui, bebo mais uma e pago as duas.

O pau d`água foi embora e voltou no dia seguinte com a mesma conversa. Novamente o dono do bar colocou duas doses e os dois tomaram. O bêbado prometeu voltar no dia seguinte e pagar as três. Fez isso umas três vezes. Por fim o dono do bar que já tava puto, chamou os seguranças do bar e falou com eles:

- Amanhã, quando esse bêbado chato vier aqui, vocês peguem ele, levem ele lá pra fora e mete a porrada, quero ver esse cara desmaiado de tanto apanhar. Vamo vê se ele volta aqui pra beber fiado outra vez.

E assim fizeram. O Bêbado chegou, eles levaram o chato pra fora e desceram o cacete nele.

No dia seguinte o bebum apareceu novamente na maior cara de pau, todo arrebentado e pediu pro dono do bar:

- Bota uma branquinha aí pra mim.

Admirado o dono perguntou:

- Você não vai mandar eu colocar uma dose pra mim não?

- Não, quando ocê bebe, cê fica muito nervoso.

Fontes: OraPois; Portal do Humor.
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sábado, 27 de agosto de 2011

Banho de Cléopatra

Era muito relaxado. Quase todas as manhãs, Ritinha fazia a mesma pergunta:

— Não vai tomar banho?

Mentia:

— Estou gripado.

E ela:

— Não mente, Hildegardo, não mente! Gripado onde?

O rapaz acabava perdendo a paciência.

— Ritinha, escuta! Te mete com a tua vida! Mania de dar palpite!

Mas a esposa era teimosa:

— Ao menos, passa álcool no pescoço e nas orelhas. Passa, Hildegardo! É tão feio homem de orelha suja.

Hildegardo acabava passando uma lição de moral:

— Escuta, mulher, escuta! — E foi enfático: — O que importa é lavar debaixo do braço. E basta! Vê se não enche! Você já está enchendo!

Ritinha suspira:

— Olha, meu filho! Eu não tenho nada com isso. É pra teu bem.

No dia seguinte, a mesma cena. O marido esbravejava: “Ih, você é chata!”.

O CASAL

Entre parênteses, era louca pelo marido. Ia dizer às amigas: — “Gosto tanto do Hildegardo, mas tanto, que olha: — se ele morresse, eu acho que não me casava outra vez”.

Protestavam:

— Mulher precisa de casamento, o que é que há? Ou você é fria?

Batia na madeira, mais do que depressa:

— Isola!

Havia, porém, na sua felicidade, um defeito: — o banho semanal do marido. Como nas anedotas, Hildegardo só tomava banho aos domingos. Menina de um asseio mórbido, que tomava, às vezes, três banhos por dia, Ritinha não entendia aquilo. Repetia, na maior boa-fé: — “É feio, meu filho, é feio!”. E o seu pavor era que a criada notasse e fosse contar na vizinhança. Toda vez que o marido entrava no banheiro, ela ia abrir o chuveiro. Explicava:

— Deixa o chuveiro aberto pra criada pensar que estás tomando banho.

Ele achou o expediente genial. Fora esse detalhe, eram felicíssimos. Até que, um dia, Hildegardo acorda antes da mulher e a sacode:

— Mulher, escuta! Vai botar o meu banho!

Vesga de sono, não entende:

— Banho?

E Hildegardo, feliz, o olho rútilo:

— Exato. Olha: — hoje, quero um banho de banheira. Caprichado.

Sentada na cama, olhava o marido:

— Que piada é essa?

Esfregando as mãos, ele fazia um risonho escândalo:

— Piada como? Você não me chama até de porco? Pois é. Resolvi ser limpo, pronto. Prepara o banho, mulher. Anda, capricha!

Tocada pela alegria do marido, enfiou os pés nas sandálias e pôs o quimono em cima da camisola:

— Até que enfim, puxa vida!

ASSEIO

Enquanto a mulher abria as torneiras, ele, diante do espelho, escovava os dentes. Disse:

— Banho morno!

O dentifrício escorria-lhe da boca como uma efervescente baba. Continuou:

— Mulher, quero sair daqui como o sujeito mais limpo do Rio de Janeiro! E olha: — vou te incumbir de uma missão especialíssima. É a seguinte: — quando eu acabar de tomar banho, você vai me limpar as orelhas com álcool. As orelhas e pescoço.

Escovou os dentes, fez a barba. A banheira já estava pela metade. Em calça de pijama, nu da cintura para cima, estufava o peito, com uma sensação de plenitude. De vez em quando, Ritinha experimentava a temperatura da água. No seu quimono rosa, esgarçado nos cotovelos, suspira:

— Sabe que eu estou te estranhando!

O marido acha graça:

— Vocês, mulheres, são engraçadíssimas! Escuta, escuta! Você sempre não reclamou? Pois bem. No dia em que resolvo ser limpo, você estranha?

Olhava aquele marido que era um garotão forte e bonito:

— Estou brincando! Você não vê que eu estou brincando, seu bobo?

Hildegardo veio beijá-la na testa:

— Minha mulher, você é a maior. Vem cá, vem cá. Põe água-de-colônia na banheira.

Era demais: — “Água-de-colônia?”. Teimou:

— Sim, senhora! Água-de-colônia! Quero um banho de Nero, um banho de Cleópatra!

Sem uma palavra, foi apanhar o litro de água-de-colônia. Faz o comentário:

— Você está exagerando!

LIMPEZA

Guarda o litro no pequeno armário e vai saindo:

— Toma teu banho, que eu vou fazer um negócio.

O fato é que Hildegardo demorou-se, na banheira, como uma noiva. Pensava, esfregando-se com ferocidade: — “Banho de casamento!”. Quando saiu, sentia-se mais leve. Gritou:

— Mulher, vem esfregar as orelhas! O pescoço!

Ela respondeu do quarto:

— Agora não posso.

Então ele molha a extremidade da toalha no álcool e passa no pescoço, nas orelhas. Em seguida, põe perfume no cabelo, debaixo do braço, no peito. Imagina: — “Devo estar cheiroso como um bebê”. E já ia saindo quando teve uma lembrança: — “Os pés!”. Inunda os pés de talco. E, então, enrolado na toalha, passa do banheiro para o quarto. Mas estaca na porta. Pergunta, estupefato:

— Que piada é essa?

Via Ritinha, muito entretida, passando a gilete nos seus ternos, um por um. A mulher acabava de abrir, em dois, o último paletó. O marido se arremessa:

— Está doida? Bebeu?

Ela ergue o rosto em desafio:

— O senhor não vai sair, não, senhor. Vai ficar aqui, comigo. Marido limpo eu quero pra mim!

Na sua raiva, segura-a pelos dois braços e a sacode. Ritinha, porém, não teve medo:

— Você arranjou uma cara e vai se encontrar com ela. Por isso tomou banho. Mas vai ficar, ouviu? Vai ficar. Quero a tua limpeza pra mim.

Larga a mulher. Com um esgar de choro, olha aquelas tiras de fazenda. Súbito, dá um repente na mulher. Puxa-o pelo braço:

— Deixa de ser burro! Eu tenho mais classe do que a gaja que você arranjou. Vem cá, vem! Burro!

Puxou-o para si. Deu-lhe um violento beijo na boca.

Meia hora depois, ele, respirando fundo, dizia:

— Você é a maior! A maior!
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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
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