terça-feira, 29 de novembro de 2011

Luizão, o brasileiro pré-histórico

Morreu jovem, ele devia ter no máximo 18 anos. Forte, ágil e musculoso, tinha traços suaves, quase andróginos. Esse brasileiro pré-histórico, apelidado de “Luizão”, viveu há 8.500 anos. Fazia parte da primeira família humana a povoar o Brasil Central, 11.500 anos atrás. Seu povo morava em abrigos rochosos que existem às centenas na bacia do rio das Velhas, em Minas Gerais. Eles viviam entre matas e cerrados nos últimos milênios da Era do Gelo, e enfrentavam um clima bem mais seco e frio do que o atual.

Ninguém sabe como “Luizão” morreu. Pode ter sido de doença, acidente, numa luta contra tribos inimigas, ou vítima das longas presas curvas de um tigre dentes-de-sabre. A vida desses pioneiros era um risco constante, poucos ultrapassavam os 30 anos. O jovem caçador não teve essa sorte. Quando morreu, seus ossos descansaram ao lado das paredes rochosas e, com o passar dos anos, ficaram esquecidos.

O clima se alterou drasticamente. Os lagos secaram, as florestas sumiram, mastodontes, preguiças, ursos, lhamas e tatus gigantes desapareceram do planeta, e até o povo de Lagoa Santa, como ficou conhecido por 160 anos de pesquisas arqueológicas, desapareceu quase por completo.

A história do brasileiro pré-histórico, a quem os cientistas chamam de “HW-04”, enfim começa a ser recontada. Tudo começou na década de 1930, quando o cônsul britânico Harold Walter, arqueólogo nas horas vagas, decidiu escavar cavernas de Lagoa Santa, vilarejo em Minas Gerais que ficou famoso em 1844, quando o naturalista dinamarquês Peter Lund revelou ao mundo os esqueletos e milhares de fósseis de uma incrível fauna extinta. Durante duas décadas, o cônsul britânico reuniu uma coleção com dezenas de esqueletos humanos, entre eles o crânio de “Luizão”. Seus restos ficaram guardados no Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

As coisas começaram a mudar em 1998, quando o antropólogo mineiro Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos da Universidade de São Paulo (USP), analisou e mediu a coleção de 81 crânios. Sua intenção era reunir evidências para provar a tese de que os primeiros habitantes de Minas Gerais tinham traços negróides, bem diferentes dos índios atuais, e muito parecidos com os dos aborígines australianos e dos africanos de hoje. Entre os diversos crânios, ele selecionou um em excelentes condições. Fez uma réplica em resina e enviou a Manchester, na Inglaterra, para o médico forense Richard Neave, um artista mundialmente conhecido por seu trabalho de reconstituição facial.

O inglês Neave se surpreendeu com o estudo dos crânios de Lagoa Santa. Por isso, aceitou fazer de graça o molde do rosto de “Luizão”, junto da assistente Denise Smith. Seu trabalho consumiu um ano e pode representar uma pá de cal na teoria da ocupação do continente americano. “Essa tese se apóia em dados estatísticos e em evidências científicas e pode colocar de cabeça para baixo todo o pensamento convencional”, diz. A repercussão política promete ser grande e envolve a discussão sobre os verdadeiros donos da terra que aqui viviam antes da chegada dos colonizadores europeus. “Essa nova teoria brasileira é fascinante, provocativa e tem um poder explosivo incrível”, afirma Neave.

O retrato do caçador de Lagoa Santa ficou pronto, e a beleza dos traços de “Luizão” é tamanha que joga para segundo plano o fato de haver poucas informações sobre ele. A precariedade dos registros de Harold Walter está no fato de as escavações terem sido realizadas antes de 1950, quando foi inventada a datação pelo método carbono-14.

Mama África – A reconstituição facial de “Luizão” serve como uma luva para evidenciar a teoria do povoamento do Novo Mundo formulada em 1989 por Walter Neves e pelo argentino Héctor Pucciarelli. Ao tomar as medidas de diversos crânios sul-americanos com mais de 8 mil anos, eles constataram que não podiam pertencer a índios descendentes de asiáticos, mas de negróides. Daí para lançar a idéia de que os primeiros humanos modernos a adentrar o continente americano teriam traços de africanos e de aborígines australianos foi um pulo.

Sabe-se que nossa espécie, o Homo sapiens, evoluiu na África e de lá saiu para povoar todos os continentes. A segunda leva migratória dos humanos modernos teria bordejado a costa do oceano Índico e cruzado o Sudeste Asiático até desembocar na Indonésia e na Austrália, há pelo menos 40 mil anos. Os aborígines australianos e da Nova Guiné, ambos negros retintos, são ancestrais diretos desses pioneiros. Para Neves e Pucciarelli, a onda migratória não parou por aí. Se alguns grupos humanos que estavam na Ásia resolveram tomar a rota Sul, em direção à Oceania, outros preferiram bordejar o Pacífico, na direção Norte-Nordeste, passando ao largo da Sibéria para atravessar o estreito de Bering e invadir o Alasca – milhares de anos antes de o primeiro siberiano com traços mongolóides refazer a rota.

Como todos os índios americanos têm traços mongolóides, resta a dúvida de qual fim levaram os primeiros povos aborígines do Novo Mundo. Há três possibilidades. Eles podem ter morrido sem deixar descendentes, vitimados pelas flutuações climáticas. De acordo com Walter Neves, que coordena desde 2000 um projeto nas grutas de Lagoa Santa com patrocínio da Fapesp, o povo de “Luizão” habitou o vale do rio das Velhas num período em que o clima era mais úmido e agradável. A partir de 7.500 anos atrás, no entanto, o ressecamento causou um abandono quase completo do local. Isso explicaria o fato de a região ter experimentado um esvaziamento populacional, apenas revertido a partir de 4 mil anos atrás, quando o clima assumiu suas condições atuais.

Outra explicação para o desaparecimento dos homens de Lagoa Santa é terem sido mortos pelos mongolóides recém-chegados, que já dispunham de arco e flecha. Há uma terceira hipótese, a de uma nova migração de siberianos dotados de tecnologia superior.

Fonte: Isto É - 24/11/2004.
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O homem que não foi a São Paulo

De repente deu-lhe aquela chateação de ter que ir para São Paulo. Olhou para a valise já prontinha, que a mulher preparara e que descansava sobre uma poltrona do escritório, e puxou um longo suspiro.

Depois olhou para a passagem da Ponte Aérea que estava em cima da mesa e sentiu um leve, um quase imperceptível mal-estar.

Afinal, tinha pouca coisa a fazer em São Paulo. Se tivesse sorte de conseguir uma linha, talvez resolvesse tudo com o chefe do escritório de lá e então ficaria com uma noite livre no Rio, iria para onde bem entendesse, dormiria num hotel qualquer e não teria de dar satisfações a Mercedes, que esta estaria crente que ele seguira mesmo para São Paulo.

Pegou o telefone e discou "Interurbano". A voz neutra e irritante da telefonista perguntou o que ele queria. Cruzou os dedos e pediu São Paulo, aliviado de não ouvir em seguida aquela frase cretina: "Os circuitos estão ocupados, queira chamar mais tarde." Quando acabou de dar as ordens ao chefe do escritório, sentia-se bem melhor.

Ao pegar de novo o telefone, parecia muito bem disposto e teve de se conter para não demonstrar sua alegria:

— Mercedes? Sou eu. .. Já vou sim. Não sei, meu bem. Sigo agorinha para o aeroporto e pego o primeiro que tiver lugar. Obrigado. Outro pra você.

Desligou e ficou imaginando que era o golpe. Ir para um bar e encher a caveira? Telefonar para uma daquelas desajustadas de sempre? Ia optar pela segunda hipótese, quando se lembrou que já era um pouco tarde e mulher avulsa que se preze não continua avulsa depois que a tarde cai. O jeito era sair por aí... Mas novamente o telefone entrou em cena. A campainha soou e ele ouviu a voz do Augusto:

— Seu passe está livre para um pagode?

Aquilo caía do céu: — Puxa, Augusto... você encaixou na horinha. Imagine que eu ia para São Paulo e resolvi não ir... Mal telefonei para Mercedes... acabei de ligar, dizendo que ia, mas disposto a ficar por aqui mesmo.

— Ótimo! — exclamou o Augusto. — Pois eu estou de cacho aí com uma pequena bem razoável. Ela me avisou que tem uma amiguinha sobrando, coisa fina, e pediu que eu levasse um amigo.

— Tô nessa boca — berrou o que ia a São Paulo e não foi, achando que mais uma vez se confirmava a sua sorte com mulher. E apressou-se: — Diga à sua amiguinha para levar a outra que eu terei o maior prazer em desencaminhá-la.

Augusto esclareceu que não precisava isso. Já estava tudo combinado: as duas estariam no bar assim-assim, às tantas horas, esperando. E, a uma pergunta aflita, tratou de tranqüilizar o amigo: não conhecia a outra, mas devia ser boa sim, porque tivera o cuidado de se informar sobre este detalhe e sua pequena garantira que era papa-fina.

Saíram logo que Augusto chegou no escritório. Estava tão animado que já ia esquecendo a valise em cima da poltrona. Voltou, apanhou-a e, antes de apagar a luz, rasgou a passagem da Ponte Aérea e jogou na cesta. "Mercedes pode ver esta porcaria no meu bolso e vai ser fogo" — pensou.

E juntou ao pensamento um ditado de sua autoria que costumava usar sempre que se metia numa baderna: "Marido prevenido, casamento garantido."

Augusto manobrou o carro e entrou na vaga com facilidade. Antes de atravessarem a rua, apontou para o barzinho elegante da esquina, explicando que elas estavam esperando ali. Quando entraram na sala um tanto quanto penumbrosa, a penumbra não chegou para esconder a mulher que acenou em sua direção:

— Aquela é a minha — foi dizendo o Augusto — e a outra é a sua.

Como se ele não soubesse que era a sua!

Lá estava ela, toda fresca, no vestido vermelho que ele financiara na véspera. Aliás, foi o ar fresco que lhe deu mais raiva. Partiu por entre as mesas bufando e iniciou incontinenti o festival de bolachas.

— Mas o que é isto... mas o que é isto? — perguntava Augusto atônito.

Ninguém ali sabia direito por que é que ele estava batendo, mas Mercedes sabia perfeitamente por que é que estava apanhando.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora
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Werther

Não me lembro de ter dito que o Palhares, o canalha, é o carioca radical. Sim, ninguém mais carioca, ninguém tão carioca. É uma espécie de irmão das coisas, das esquinas, das retretas, dos paralelepípedos da cidade.

Olha o Pão de Açúcar como se fosse a primeira vez, sempre a primeira vez. E tem a sensação de que a luz acaba de inaugurar o Corcovado.

Pois bem. E, ontem, eu estava na Cinelândia, olhando os pombos. Não sei que misterioso pudor me impede de lhes dar milho na mão. De repente, ouço o berro: — "Nelson! Nelson!". Era o Palhares, "o que não respeita nem as cunhadas".

Na calçada da Biblioteca, ele, qual um extrovertido ululante, berrava o meu nome.

E, depois, atravessou a Avenida. Os automóveis em disparada raspavam o magnífico pulha. Mas ele chegou do outro lado, sem um arranhão, sem uma fratura e sem uma trombada.

Olhei o canalha. Como sempre, tinha uma pele de quem lavou o rosto há quinze minutos. E anunciou: — "Tenho uma pra te contar, menino!". Imaginei que devia ser a sua última conquista. O Palhares tem sempre uma "última conquista". E ele, já de olho rútilo, ia começar.

Súbito, balbucia: — "Até logo, até logo!". Segurei-o pelo braço: — "Que é isso, rapaz?". Diz, baixo: — "Vem aí o Torres. Já me viu. Torres, o homem de bem. O maior chato do Rio de Janeiro. Adeus!". Largou-me e fugiu.

E eu, que também conhecia o Torres, tratei de escapar.

Atravessei para a Câmara, dobrei a Evaristo da Veiga e fui andando, rente à parede. Se vocês conhecessem o Torres, "o homem de bem", justificariam o meu horror e o do Palhares.

O Torres é a virtude mais promocional do Rio de Janeiro. Em todas as esquinas, salas e retretas ele esfrega, na cara dos outros, a sua honra. Lembro-me de um dia em que, na esquina de Sete de Setembro, bramava: — "Sou um homem de bem! Sou um homem de bem!". E quando ele aparece as pessoas fogem, como se ele fosse o Juízo Final ou, pior do que isso, o rapa.

Jamais o Torres deu um biscoito a um pobre sem promover tal esmola em manchetes. Mas não é ele o único Narciso da caridade. A toda hora e em toda parte, há íntegros que nos atropelam com a sua integridade, há justos que nos humilham com a sua justiça, há castos que nos ofendem com a sua pureza. Raríssima uma bondade sem impudor. Por isso, chega a ser inquietante o caso de Abrahim Tebet.

Digo-lhe o nome e não sei se vocês o conhecem. Foi homem do esporte, do futebol, do escrete. Mas o que me interessa é o Abrahim Tebet "ser humano". Muita gente só tem de humano o terno, a gravata, os sapatos. E passamos meses e até anos sem ver ninguém parecido com o ser humano.

Há dois ou três dias, Abrahim tomou posse do cargo de presidente do Conselho Estadual de Trânsito. Ah, que figura patética e, eu quase dizia, chapliniana, a do "empossado".

Depois do governador Negrão de Lima, falou o próprio Abrahim. Imaginei: — "Vai chorar!". Mas não chorou. Ah, o esforço que fez para controlar a própria tensão. Ao lado, estava o Luís Alberto Bahia, o chefe da Casa Civil. Nós sabemos que o poder gosta de pôr uma máscara hirta. Mas o nosso Bahia é, justamente, o poder dionisíaco. Sai de casa, num suntuário chapa-branca, e leva no bolso várias gargalhadas. Ria para mim, para o Abrahim, para todo o mundo. Essa alegria antioficial estarrecia os mais tímidos.

Mas sem querer estou pecando contra o meu assunto. Volto a ele. Eis o que eu queria dizer: — vimos a bondade do Torres, que se badala como um sino indigno. Mas a do Abrahim é, justamente, a que se esconde, a que se nega, e se disfarça. Diria que ele faz o bem às escondidas, como quem pratica um ato obsceno. É bom com vergonha de o ser.

Quando ele deixou a CBD, houve quem sussurrasse o vaticínio: — "Vai morrer de fome". Aí está. Abrahim, o doce, sempre terá uma fatia de pão e um pouco de manteiga para lhe barrar por cima. (Não sei se eu disse que o Luís Alberto Bahia tem o riso luminoso e forte dos sátiros vadios). Falei de Abrahim e passo ao Nelsinho Motta.

Dias atrás, escrevi sobre o jovem cronista, e não só cronista: — também homem de TV, da canção, do romance (ainda não escreveu nenhum romance, mas será, um dia, romancista). E o Nelsinho, que é romântico por dentro e por fora, romântico no terno, romântico na gravata, romântico na calça de veludo e romântico na palidez. Faço ponto, porque já vou arquejando.

E, como ia dizendo: — o Nelsinho escreveu, justamente, contra os românticos. Há uma rapaziada aí que anda bebendo nas fontes líricas da música popular. E meteu-lhe o pau.

Não contente, Nelsinho faz do Chico Buarque de Holanda uma imagem cruelmente inexata. Na sua versão, o autor de A banda seria um vampiro saudoso de carótidas, querendo beber o sangue gelado da burguesia. Mas esse é o falso Chico, a negação do Chico, o anti-Chico. Ninguém mais nostálgico, ninguém mais fremente, ninguém mais pungente.

E como é antiga e infeliz a sua ternura. Querem transformar um Pierrô do Méier num Guevara de capinzal vagabundo.

Dirá o leitor: — "E Roda viva?". Ah, Roda viva é também o anti-Chico, e por outras palavras: — Roda viva é o José Celso. O diretor sentou-se na alma do espetáculo. No texto que lá aparece não há uma janela. Ora, o Chico tem, como as modinhas antigas, a obsessão das janelas. Eu me lembro de uma letra de Hermes Fontes (de Hermes Fontes ou Olegário). Diz assim: — "Pela janela da saudade" etc. etc. Aí está insinuada a Carolina.

E eu achei que toda a crônica do Nelsinho tinha um som de moeda falsa. Por que o pudor de ser piegas? Que somos nós, todos nós, senão 80 milhões de piegas? E o Nelsinho, que é capaz de fazer um pacto de morte na primeira esquina, e Chico, idem? Um ou outro devia aparecer na boca-de-cena e anunciar, de fronte alta: — "Damas e cavalheiros: — Eu sou um piegas nato e hereditário". E o Sérgio Buarque de Holanda, uma das inteligências mais sérias do Brasil? Em várias entrevistas, já declarou: — "Eu sou apenas o pai do Chico". Eis um gesto do piegas radical e incontrolável.

Quando escrevi sobre o Nelsinho, estava disposto a uma feroz polêmica. Seria o patético, raiando pelo sublime: — de um lado, eu, velho, de uma velhice inenarrável; de outro lado, o Nelsinho, com todo o esplendor das Novas Gerações.

Mas não há tal polêmica. O Nelsinho pensa como eu, sente como eu, e mais: — usa contra mim as minhas próprias piadas. Quando cruzar com esta figura da belle époque, hei de perguntar-lhe: — "Quando é o pacto de morte?".

E dirá ele, pálido como um Werther: — "Estou caprichando".

[8/8/1968]
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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