quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Foi num clube aí

Isto mesmo, foi num clube da Guanabara, desses que cultivam a chamada segregação racial.

De repente o Conselho Deliberativo foi obrigado a se reunir em sessão especial por causa de um bode que deu num dos eventos sociais da agremiação.

Alguns conselheiros já sabiam vagamente do que se tratava, mas a maioria estava por fora, boiando no assunto. É que a grave ocorrência se dera em circunstâncias mais ou menos veladas.

Todavia, clube vocês sabem como é: um antro de fofocas que eu vou te contar. Num instante começaram os boatos, os blá-blá-blás regulamentares.

Afinal, reunidos os senhores conselheiros, foi explicado que, durante uma reunião dançante, um sócio tinha bolacheado a namorada, num cantinho discreto do salão. A coisa, no entanto, se esparramara pela sede. Ora, em clube de gente metida a diferente, aquilo era insuportável. Imaginem: um sócio exemplando a namorada numa dependência social.

Discutiu-se a matéria ad nauseam — como dizem os latinistas enjoados — mas aí um dos conselheiros garantiu que a coisa não fora bem assim. Um sócio tinha, realmente, baixado a manopla numa mulher, mas não era namorada, era esposa.

Ora, isto agravava o caso. Um homem que não sabia respeitar a própria "patroa" (em clube usa-se muito chamar a mulher de "patroa", assim como no Lioris eles chamam de "domadora"), era indigno do quadro social.

Discutiu-se a matéria outra vez e aí outro conselheiro afirmou que tinham visto e lhe contado que o sócio dera uma bolacha, de fato, mas fora numa bicharoca, e não numa mulher. Gravíssimo, pois!

Discutiu-se a matéria e o Conselho Deliberativo já ia deliberar, quando um dos membros viu-se na obrigação de contar tudo, garantindo aos seus coleguinhas que era pior ainda. Não fora um sócio, mas um diretor que batera na bicharoca.

Espanto geral! Mas que vexame! Sim, era, pior, porém: duas bicharocas é que tinham se esbofeteado por causa de um diretor.

A discussão — nesta altura — já era velada, tudo falando baixinho.

E aí o presidente do Egrégio Conselho Deliberativo foi obrigado a suspender a sessão e aconselhar a todos que não falassem mais nisso, pois acabava de ser informado ao ouvido, por um conselheiro discreto, que não foi o caso de duas bicharocas brigando por causa de um diretor, e sim dois diretores brigando por causa de uma bicharoca.

_______________________________________________________________________
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.
Leia mais...

A expectativa matrimonial

Bernardino, Bolão e Madureira eram três amigos inseparáveis. Viviam juntos e onde ia um, ia o resto. Pois bem: de repente o Bernardino sumiu. Passou uma semana sem aparecer no botequim e os amigos já estavam ficando preocupados.

Ficaram tão preocupados que chegaram a telefonar para o DOPS. É a atual conjuntura. Nego quando some, atualmente, ou tá viajando ou tá hospedado no Hotel Palace DOPS. Mas, felizmente, não era nada disso e dias depois o Bernardino apareceu.

Vinha com cara de cachorro que quebrou panela, e sentou-se à mesa do bar meio constrangido. Pediu uma cachaça e, enquanto era crivado de perguntas pelos outros dois pinguços, dava um riso de experiente e depois contava:

— Bem... eu fui dar uma de casado e me dei mal.

— Ué, por quê? — perguntaram os caneados de sousa.

— Não dá pedal, meu camaradinha. Eu arrumei uma grinfa e me maloquei uns dois dias. Depois, bem, depois eu pensei que dava pra gente fazer um casório pelo facilitário e foi aí que eu me estrepei. Foi só ela chegar lá em casa e começar a mandar brasa na minha felicidade.

E foi desfiando o seu rosário de queixas. A grinfa chegou no modesto apartamento de Bernardino e mandou logo pintar a sala. Jogou fora todas as garrafas vazias que estavam na área e que, embora vazias, já tinham dado algum prazer a ele. Era tudo coleção: Praga de Mãe, Respeita a Mulher do Sargento, Mocotolina, Sabugo de Ve¬lha, E Então? Cachaças de rótulos originais e que nunca mais apare¬ciam outras iguais. E o Bernardino continuava se queixando com justa razão.

— Além disso, mandou limpar a cozinha, arrumou meus sapatos, passou meus ternos, minhas camisas e mandou eu cortar o ca¬belo e fazer a barba.

— Bem, olha aqui, Bernardino — falou o Madureira — quanto à cachaça eu não dou razão a ela, mas quanto à arrumação, vamos lá...

— Que nada, rapaz! Dois dias depois ela estava igualzinha à minha primeira mulher. Cheia de intimidades, querendo beber no meu copo e querendo dormir agarrada comigo. O que é que há?

— Mas espera aí, Bernardino — disse Bolão — isto é onda de mulher casada. Elas faz tudo isso. Será que você não sabia?

— Você é gozado... Claro que eu sabia. Por isso é que não deu nada certo. O apartamento, além de pequeno, tinha o problema da Margarida, que não gostava dela.

— Ué, eu não sabia que você tinha cachorra!

— Que cachorra, rapaz! Margarida é o nome de minha esposa.

_______________________________________________________________________
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.
Leia mais...

Os abnegados

 Há uma página de Os Maias que não consigo esquecer.

Imaginem um ministro de Educação que não tinha cara, só tinha testa. Nem um mísero e escasso fio de cabelo.

Tamanha testa foi o seu destino e sua glória. Ele não precisava ciciar uma palavra, ou desdenhar um gesto, ou piscar um olho. A testa bastava e repito: — a testa era a evidência mesma do gênio.

Uma noite, está o nosso ministro numa recepção. Cercado de damas e cavalheiros por todos os lados. E, súbito, alguém fala na Inglaterra. S. exª achou bonito o nome, o som. Inglaterra.

E vira-se, então, para o Ega, que estava a dois passos. Pergunta-lhe:

— "Sabe se, na Inglaterra, há folhetinistas de pulso, como aqui? Talentos como os nossos?".

Primeiro, o Ega tem uma vertigem diante da testa inaudita.

Em seguida, informa: — "Lá não há literatura".

Diz então o ministro: — "Logo vi. Povo prático, essencialmente prático".

Eis o que eu queria dizer: — sou um pouco essa admirável testa de Os Maias. Em criança, só li folhetim. E ainda hoje, tanto tempo depois, ainda preservo a nostalgia dos Sue, dos Perez Scrich, dos Dumas pai, dos Ponson du Terrail. Outro dia, vou a uma festinha em casa de um amigo. E, de repente, vem a dona de casa, com um pratinho.

Pergunta: — "Aceita rocambole?". Esse nome arremessou-me no passado profundo. "Rocambole" era o nome de um herói de Ponson du Terrail e título também do próprio folhetim.

Disse, radiante: — "Pois não, pois não". E os dois ficaram justapostos na minha memória: — o personagem e o doce, o folhetim e o prato.

Essa mesma experiência proustiana tenho eu quando me chega uma carta anônima. E aí está uma marca de leituras pasmas. Como se sabe, a carta anônima é um dos artifícios mais felizes do velho folhetim. O marido a recebia (e o marido era sempre sórdido e obeso). Lá vinha escrito: — "Considere-se miseravelmente enganado". E se disparava a intriga romanesca. Na altura dos meus oito, nove, dez anos, daria tudo para receber uma torpe carta anônima.

Fiz a introdução acima para contar o que me sucedeu ontem.

Vou ler a minha correspondência e já no primeiro envelope tenho o impacto. É que a carta não trazia assinatura. Ah, o homem diz, na carta anônima, o que não ousaria dizer ao padre, ao psicanalista e ao médium, depois de morto. O menino do folhetim veio à tona. Comecei a ler.

Começava assim: — "Nelson, você é um traidor". Minha curiosidade assumiu proporções inéditas. Traidor, eu? Da pátria, talvez. Entre parênteses, assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria.

Em seguida, a carta anônima informa que sou traidor da própria classe. Qual delas? Tenho duas: — por um lado, faço jornalismo; por outro lado, faço teatro.

Segundo a carta, era traidor da classe teatral. Quando cheguei à última linha, voltei à primeira e reli tudo. Só então fui-me olhar no espelho. E vi, na minha cara, o esgar hediondo da traição.

Fica de pé a pergunta: — e por que traidor? Vejamos os fatos.

O Estado de S. Paulo fez um editorial, ou dois editoriais, que desagradaram a classe. E que faz a classe?

Reúne-se e, por unanimidade, resolve devolver os Sacis que o velho órgão distribui entre os melhores de cada ano, no cinema e no teatro. E, não satisfeita, a assembléia decidiu, e por outra unanimidade, uma passeata-monstro.

Mas, vejamos. A classe ia marchar contra quem? Aqui começa o doloroso, o comprometedor, o humilhante: — contra um jornal. Se os meus colegas saíssem pelas ruas paulistas decapitando marias antonietas e derrubando bastilhas, eu estaria admirando a ferocidade teatral. Mas a nossa vítima é uma redação, vejam vocês, uma redação.

Por outro lado, tenho algumas dúvidas perturbadoras.

O Saci é uma pequena estatueta. E se fosse um prêmio em dinheiro? Repito: — se o Saci fosse um cheque de 5 milhões de cruzeiros? E nem precisa tanto. Imaginemos um cheque mais modesto de 1 milhão ou menos do que isso: — de 500 mil cruzeiros antigos. Pergunto se os manifestantes devolveriam o dinheiro vivo.

Duvido, isto é, afirmo que ninguém devolveria um centavo. Portanto, vamos desconfiar de um desprendimento que não desembolsa um tostão. Nem considero a unanimidade um argumento decente.

Quanto ao meu caso pessoal, estou farto de repudiar unanimidades. Além disso, como eu sou um premiado, e não vou devolver Saci nenhum, não existe tal unanimidade. Mas, vamos admitir que todos, absolutamente todos, estejam contra O Estado de S. Paulo. Eu estaria a favor. Não me solidarizo com os erros, os equívocos, de minha classe. Diz a carta anônima: — "Uma classe não erra. Uma classe sempre tem razão".

Nada mais falso. Homens, classes ou povos são suscetíveis dos mais sinistros enganos ou das mais hediondas torpezas. O motivo e a origem de tudo foram dois editoriais. Que fossem duzentos. Qualquer jornal tem o direito de escrever como quiser e o que quiser, sem dar satisfações a ninguém. Falo por experiência própria.

Ao longo de vinte anos, fui o único autor obsceno do Brasil. E, durante esse período, fui chamado de "tarado" em manchete. Os críticos me xingavam de "cérebro doentio", de "caso de polícia", de "louco varrido". O dr. Alceu Amoroso Lima disse horrores de mim. Em momento nenhum, neguei-lhe o direito de me dizer tais horrores. Sempre quis a imprensa livre.

Diz a carta que a classe quer a liberdade. Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade. Dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura. A passeata que se fez é, precisamente, contra a liberdade de imprensa.

Queremos um teatro livre. E, ao mesmo tempo, pretendemos exercer uma censura, vejam vocês. Os censores da imprensa somos nós, atores, atrizes, autores. Em nome da liberdade, agredimos a liberdade. Ainda bem que o nosso heroísmo começou e acabou na devolução dos Sacis.

E assim o pessoal de teatro desceu do palco e foi às ruas, representar de libertário.

[22/6/1968]
_______________________________________________________________________
A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Leia mais...