sexta-feira, 23 de março de 2012

Pontaria de pierrô

Foi em Parada de Lucas, que fica pertinho da aprazível estância fluminense de Caxias e, vez por outra, lhe sofre a influência e manda brasa. Claro, Parada de Lucas não chega a ser Caxias. Seria preciso pelo menos mais uns 25 crimes de morte por dia, para poder igualar-se à outra. Mas os paradenses, não é pra se gambá não, até que têm suas mumunhas.

Desta vez foi à noitinha. Juarez já andava desconfiado que sua noiva — Marli — andava colhendo pitanga noutro pomar.

Afinal, Marli brigara com ele sem explicar coisa alguma e noiva que se manda sem motivo é porque o motivo escondido é — no mínimo — um bombeiro, um sargento ou um simples amanuense.

Juarez ficou na tocaia porque, embora estejamos a viver o esplendor da fase do "dedo-duro", não encontrou ninguém para informar quem era o gaiato que estava botando sua pimenta no vatapá da moça.

E na tocaia esperou pacientemente até que viu a bela no portão de sua casa.

Prenhe de incontido ciúme, Juarez catou duas pedras no chão e atirou a primeira, que bateu na testa de Marli e foi pra "corner". A moça ficou cambaleando, o que não impediu Juarez de ser mirolha outra vez. A segunda pedrada quase arranca a orelha de Marli, que foi internada no Hospital Getúlio Vargas.

Quanto a Juarez, foi em cana. Vai ter pontaria assim na... no... enfim, deixa pra lá.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: GAROTO LINHA DURA - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975
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quinta-feira, 22 de março de 2012

Os idiotas confessos

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem.

No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante. Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — "Uma santa! Uma santa!".

Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc. Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão.

E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — "Eu sou um quadrúpede!". Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — "Sou um quadrúpede de 28 patas!". Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota. E o imbecil como tal se comportava.

Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos "melhores". Só os "melhores", repito, só os "melhores" ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.

Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos "melhores", só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os "melhores" podem pensar, agir, decidir.

Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — "Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido". Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora!

Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo. De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos "melhores". Para um "gênio", 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos.

E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os "superiores". Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos "melhores", ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a "invasão dos idiotas". E, de fato, eles explodem por toda parte: — são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer.

Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou a Virgem Maria, será exatamente o fim.

É o que está acontecendo. Nem se pense que a "invasão dos idiotas" só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — "Subdesenvolvimento" — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.

Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos.

Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com ainicial maiúscula).

Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.

Cabe então a pergunta: — "O dr. Alceu pensa assim?".

Não. Em outra época, foi um dos "melhores". Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado.

Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc.

A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação.

São os idiotas, os idiotas, os idiotas.

[19/8/1968]
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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quarta-feira, 21 de março de 2012

O operário e o leão

Esta fábula foi recolhida no folclore europeu pela veneranda Tia Zulmira, sábia ermitã da Boca do Mato, que ultimamente tem gasto seu precioso tempo justamente em pesquisas folclóricas.

Era uma vez um leão. Este leão trabalhava num circo que havia num reino distante e era considerado pelo povo do reino como um dos leões mais ferozes do mundo.

Tal era o cartaz do leão que, quando ele trabalhava, o circo enchia mais que discurso de Flávio Cavalcanti, na televisão.

Um dia — foi num domingo — o povo daquele reino, que vinha sendo vítima dos reformadores contumazes de todos os reinos, países, principados e republiquetas, ouviu dizer que o leão ia aparecer em um número novo. E então todo mundo foi ao circo, ver a coisa, e se distrair um pouco.

Mas eis que, de repente, o feroz leão deu um pulo dentro da jaula e arrebentou as grades, fugindo para a rua. O pânico estabeleceu-se imediatamente. Todo mundo correu, menos um rapaz franzino que estava parado numa esquina, esperando a namorada.

O leão avançou para o rapaz que, sendo muito valente, puxou um canivete que tinha, para fazer ponta em fósforo e  economizar o palito. E só com aquele canivetinho, ele matou o leão. A fera pulou em cima dele e ele teve tanta sorte que acertou uma canivetada na jugular do leão, que morreu de anemia ali mesmo.

Foi uma coisa espetacular. Logo o povo todo correu para festejar o rapaz e veio a imprensa, veio o rádio, a televisão e até as altas autoridades.

Um ministro perguntou logo, diante da coragem do rapaz, se ele era chefe de esquadrilha de aviões de combate. Mas o rapaz não era. Um oficial de Marinha quis saber se o rapaz era piloto de submarino suicida. Mas o rapaz não era. Não pertencia a qualquer das forças armadas daquele reino.

— Mas então, que é que você é? — perguntou o diretor do maior jornal dali.

— Eu sou operário — respondeu o rapaz.

E no dia seguinte, todos os jornais do reino publicavam em manchete:

" Leão acuado e indefeso morto por feroz agente comunista".

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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: GAROTO LINHA DURA - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975
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