segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre vaidade

Há tempos, contei o caso do ministro que foi, pela primeira vez, à televisão. A família tremeu em cima dos sapatos. E não sei se a própria mulher, uma tia, ou uma cunhada, deu a sugestão espavorida: — "Toma banho! Toma banho!". E porque não lhe ocorrera a idéia do banho, o ministro julgou-se um vencido.

Imediatamente, a esposa se arremessou. Podia ser banho de chuveiro. Mas, como ele ia falar na TV, a santa senhora achou que devia ser banho de imersão. Encheu a banheira. Temperou a água. E o banho ministerial foi digno de Paulina Bonaparte. Do lado de fora, a mulher comandava: — "Esfrega bem! Esfrega bem!". Uma tia cochichou: — "Debaixo do braço!". E a mulher mais alto: — "Debaixo do braço, ouviu?".

Súbito, alguém veio dizer à esposa: — "Homem não sabe tomar banho. Não se limpa direito". Vozes a instigavam: — "Vai lá! Vai lá!". E ela foi. Quando s. exa. saiu, era o membro mais limpo do governo.

E, assim, esfregado pela própria mulher e mais perfumado do que uma noiva, lá se foi o ministro. Ele, só, não. Levava um acompanhamento estarrecedor. Parecia uma passeata de parentes. Havia, na família, uma solteirona de García Lorca. Chamada, não queria ir. Quase a laçaram; e a velha estrábica (era estrábica) teve que se incorporar à massa familiar.

O ministro entrou na estação em ânsias, palpitações sufocantes. Não acreditava em nada, era um ateu nato e hereditário. Todavia, na hora de ir para o ar, vira-se para a mulher: — "Reza por mim! Reza por mim!". E, com uma dispnéia pré-agônica, encaminhou-se para o abismo. Sim, a televisão era, para S. Exa., um abismo voraz e inédito.

Na frente das câmeras e dos microfones, deixou de ser o poder, o governo, a autoridade. Era o contínuo de si mesmo. Houve um momento em que, em pleno ar, teve sede. Apanhou o copo com as duas mãos. Mas parte da água voltava como uma baba.

Já não me lembro por que é que estou contando tudo isso. Ah, já sei, já sei. Eu queria demonstrar o óbvio, isto é, que a televisão fascina qualquer um. O sujeito pode ser rei, ou rainha, ou anjo, ou santo. Mas atravessa três desertos para entrar no programa do Chacrinha, da Dercy ou da Bibi.

Cabe então a pergunta: — e por que esse deslumbramento?

Vamos lá. Primeiro, porque, normalmente, cada um de nós é um ator sem platéia. Representamos, no máximo, para uma namorada, para meia dúzia de familiares, meia dúzia de vizinhos, meia dúzia de credores. E o sujeito que entra no Chacrinha sai de lá célebre. Aparece para milhões. E essa celebridade fulminante é a maior delícia terrena.

E quem fala para tantos pode, com uma frase, fundar uma religião, com outra frase derrubar um império, com uma terceira frase decapitar várias marias antonietas. De mais a mais, a simples imagem nos confere uma nova dimensão. Pois não há idiotas no vídeo.

Lembro-me de um outro ministro. Alguns espíritos, estreitamente positivos, afirmam que é débil mental de babar na gravata. Foi para a televisão e parecia um Disraeli. E De Gaulle, que fez De Gaulle, quando viu a França sob a brutal ocupação francesa? Correu à TV e anunciou: — "Eu sou a Revolução!".

Isso, dito cara a cara, e para meia dúzia, não convence ninguém. Mas uma platéia de 20 milhões não pensa. E não precisou polícia, nem exército, nem bazuca. Uma frase bastou. Sem nenhuma repressão sangrenta, o único francês vivo liquidou o que ele próprio chamou de "carnaval". Baixou sobre a França uma súbita quarta-feira de Cinzas. O que restou de tudo foi a ressaca do caos ululante.

E se alguém disser na televisão que é Joana D'Arc, será Joana D'Arc. Portanto, a França e colônias (se sobrou alguma colônia), todo mundo acreditou que De Gaulle era a própria Revolução de esporas e penacho.

Aqui mesmo tivemos o encontro de Carlos Lacerda e d. Hélder. Iam fazer um diálogo. Mas o diálogo foi monólogo. Só Lacerda falou. O arcebispo disse um "oba" à entrada e um "até logo" à saída.

Por que tal silêncio? Por dois motivos: — primeiro, porque d. Hélder só se interessa por d. Hélder; segundo, porque é um arcebispo de TV, um santo de TV. Ele próprio o disse: — "Não sou um Guevara de salão". É um Guevara de TV. Carlos Lacerda era um único e escasso espectador. D. Hélder só falaria para milhões de carlos lacerdas.

Eis o problema: — ninguém quer mais posar para meia dúzia. O nosso gesto, a nossa ênfase, a nossa careta pedem a grande comunicação, a formidável audiência. Aí está a minha CLASSE.

No passado, era-se atriz, ator, diretor para uma platéia de poucos. Mas hoje o palco passou a ser a pior forma de solidão. Diante dos 150 gatos-pingados de cada sessão, a Duse ou o Zaconi sente-se um Robinson Crusoé sem radinho de pilha. Instalou-se em cada um de nós, do teatro, a utopia das platéias fantásticas.

Disse-me o dramaturgo Plínio Marcos que queria representar e ser representado no ex-Maracanã, hoje Mário Filho, para uma platéia de Vasco x Flamengo, de Santos x Corinthians. Cada um de nós queria ser um Santos x Corinthians, um Vasco x Flamengo. Ou ainda: — qualquer um de nós gostaria de ser, na pior das hipóteses, uma preliminar de Fla-Flu.

Foi a televisão, claro, que nos deu essa obsessão numérica das grandes massas. Volto ao teatro. Lembro-me de um ator que me dizia, patético: — "Eu queria morrer no palco". Um outro, mais radical, além de querer morrer no palco, gostaria de ter nascido no palco. E o palco seria, duplamente, berço e túmulo. Hoje, este último gostaria de nascer e morrer na TV, para milhões.

Por que todos gostamos de fazer passeata? Pode parecer que temos altíssimas e sutilíssimas razões políticas, ideológicas, revolucionárias etc. etc. Na verdade, e até prova em contrário, o que há é a vontade que cada qual tem de ampliar a sua platéia. Reparem como tudo é pretexto para passeata. Há uma greve de veterinários? A CLASSE sai à rua. Mas como, se ela nunca tratou de cachorro? Não importam os cães, sejam eles galgos ou vira-latas. O que interessa é a conquista de uma nova e incalculável platéia.

Outrora, as sacadas não iam ao teatro, os automóveis não gostavam de teatro, os edifícios abominavam o teatro. E a passeata incorpora à sua platéia ideal milhares de carros, e prédios, e esquinas, e avenidas etc. etc. Dirá alguém que é um público sem bilheteria. E pergunto: — e a vaidade? Hoje, há poetas, sociólogos, arquitetos, protéticos, cardiologistas que pagariam, do próprio bolso, para entrar na passeata.

Eu disse "vaidade". Aí está a palavra que explica tudo. O que nos induz à passeata é, digamos, uma vaidade de leitão assado. Se não entenderam a metáfora, tentarei justificá-la.

Imaginem um salão imenso. Banquete. Quinhentas pessoas sentadas, entre casacas e decotes. E, lá do fundo, um garçom traz na bandeja um leitão. Levado na bandeja em desfile, o leitão há de sentir uma vaidade total. Assim também o artista, o literato, o cineasta ou o padre de passeata.

O sujeito parece desfilar triunfalmente, numa bandeja imaginária, e de maçã na boca, como o leitão assado.

[6/8/1968]
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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sábado, 26 de novembro de 2011

Sábado com céu encoberto

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Nesta tarde de sábado com o céu encoberto tiramos algumas fotos no tradicional balneário itajaiense de Cabeçudas, que mais uma vez, estava bem freqüentado.

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Cadelinha puro-sangue

Quando ela passava, pisando com garbo o asfalto da ruazinha sossegada, deixava a masculinidade local indócil. Mesmo os casados fingiam que vinham à janela para espiar o tempo, ou para jogar fora uma ponta de cigarro, ou para ver se as crianças-estavam-brincando-direitinho. Enfim, quando ela passava marcava ponto.

Também pudera! Mulher certinha estava ali. Aquilo era mulher para banquete de quatrocentos talheres. Bonita, sadia, corpo tamanho universal. Era de vê-la, irmãos, era de vê-la.

Trabalhar não trabalhava. Bastava olhar para ver o ócio a se derramar de seu olhar, pidão. Corria à boca pequena que era sustentada por um coronel.

Como toda mulher vaidosa e ociosa, tinha um cachorrinho. À noitinha costumava sair com seu cachorrinho, para passeá-lo um pouco. Aliás, minto... não era um cachorrinho: era uma cadelinha. Dessas ridiculamente poodles. Um dia, Mirinho estava atrás da persiana, olhando-a como sempre, quando ouviu ela dizer para uma doméstica que chamara a cadelinha de "um amor":

— É raça pura.

— Já cruzou? — perguntou a doméstica, numa curiosidade um tanto ou quanto grossa.

— Com esses vira-latas aqui da rua? Deus me livre! — e a boa fez cara de nojo, mesmo assim continuando uma gracinha. E acrescentou: — Esta só cruza com cão da mesma raça.

Mirinho ouviu, anotou e, quando conseguiu uma mesada mais gorda pouquinha coisa da sempre benemerente Tia Zulmira, comprou um cachorrinho poodle. Na tardinha seguinte, quando o pirão-da-redondeza deu a sua voltinha para passear a cadelinha, Mirinho entreabriu a porta e disse para o cachorrinho:

— Vai, Conquistador (Mirinho botou o nome no cachorrinho de "Conquistador" por motivos óbvios).

O cachorrinho saiu e foi direto fazer amizade de cachorro com a cadelinha. A dona da cadelinha achou Conquistador um amor. Levantou-o nos braços, deu beijinho no focinho e estava curiosa sobre sua procedência, quando Mirinho apareceu na calçada, fingindo-se preocupado, olhando em torno.

Nesse dia voltou com Conquistador debaixo do braço, mas conversou um pouquinho com a boa.

No segundo dia soltou Conquistador quando a boa já estava retornando ao lar. No terceiro, depois que ela já tinha entrado em casa. Enfim, do quinto ou sexto dia em diante, Conquistador já era íntimo da residência da moça. E Mirinho também.

Como, minha senhora? O coronel dela? Ah... o coronel já estava queimando óleo 40. Só vinha uma vez por semana.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora
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