sábado, 15 de outubro de 2011

Margarida Max

Margarida Max
No fastígio do Teatro de Revista do Rio de Janeiro, uma linda mulher de sua voz e de sua beleza, para prestigiar a Música Popular Brasileira, nos espetáculos em que estrelava. Era no palco que se tornava rainha.

A partir de 1920, até meados dos anos 40, uma moreninha paulista, de olhos tentadores, que a lenda garantia ter nascido em Roma e se apaixonado pelo Brasil, foi uma das figuras femininas mais importantes do teatro de revista nacional.

Filha de italianos, nascida em São Paulo e criada em Franca, onde era conhecida como a Margarida do Max, nome de um eterno noivo, rompeu com a cidade e o noivado ao se tornar atriz de uma companhia itinerante que por lá passou.

Margarida Max em 1927
No Rio de Janeiro, adere ao teatro de revista, no qual se torna uma de suas principais vedetes, estrela de grandes montagens, cercada de nomes que ficariam célebres. Sílvio Caldas, Joraci Camargo, Luiz Iglésias, Luiz Peixoto, Olegário Mariano, Vicente Celestino, Otília Amorim, Viriato Correia, Mesquitinha, OduvaldoViana, Palmeirim e tantos outros.

Como as demais prima-donas do teatro de revista, Margarida Max lançava músicas, ficando famosa sua interpretação do samba Braço de Cera, de Nestor Brandão. Mas seu grande êxito foi na revista Brasil do Amor, de 1931, quando lança a versão definitiva de No Rancho Fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo. Um sucesso nacional, que saltou do palco da revista para ser cantado pelo Brasil inteiro.

Margarida não teve carreira longa, morreu aos 54 anos, já retirada. Mas antes viveu anos de glória, como uma das mulheres mais cobiçadas da época.

Fonte: História do Samba - Editora Globo
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O mistério da casa mal-assombrada

"À noite, o espectro vagava pela solidão" — isto dito assim, parece Shakespeare, mas não é. Trata-se do trecho de um dos contos de assombração que Tia Zulmira escreveu recentemente.

Aliás, a sábia macróbia da Boca do Mato tem um talento que às vezes se confunde um pouco com o do autor de "Hamlet". Não é o caso, porém, quando se trata dos referidos contos mal-assombrados que a velha deu para fazer agora. Para que vocês tenham uma idéia, este seu sobrinho e difusor transcreve abaixo um deles:

"O casal mudara-se para aquela casa velha havia dois meses e nunca soubera antes que a casa tivesse fama de mal-assombrada. Se soubesse, talvez não tivesse alugado o imóvel, mesmo porque o casal não era inglês, que é tarado por fantasma. Na Inglaterra, um castelo mal-assombrado é sempre alugado mais caro, porque lá é "bem" o chamado contato social com espectros.

A casa de que falo, no entanto, era em Brás de Pina, onde fantasma tem menos cartaz que o time do Canto do Rio.

Mas — dizia — talvez os novos inquilinos não tivessem alugado o imóvel. Não que o casal acreditasse nessa besteira de assombração; tanto o distinto como a esposa (que ele, no mau gosto inerente à plebe ignara, chamava de "minha patroa") eram pessoas de certa idade. Sabem como é: depois de várias baianadas da vida, algumas pessoas já não acreditam em azar e chutam despacho com farofa amarela, galo preto e charuto barato com a mesma displicência de um jogador de futebol batendo bola antes do treino.

Mas havia a filha, mocinha de 20 anos, muito nervosa e que, quando soube que a casa tinha fama de abrigar figurinhas fantasmais, ficou mais nervosa ainda. Os pais não sabiam que havia fantasma em Brás de Pina, porque quem já morou em Brás de Pina nunca mais quer voltar e, muito menos, depois que já morreu. Vai daí, foram morar na casa.

Já viviam ali há uns dois meses quando, uma tarde, a mocinha voltava da fila do leite, onde aguardara, durante quatro deliciosas horas, a sua vez de comprar um litro, e — no caminho — encontrou a vizinha. A vizinha era mais fofoqueira que mãe-de-vedete-argentina-do-teatro-rebolado. Mal começou a conversar com a mocinha nervosa, perguntou se os fantasmas apareciam muito ultimamente

— Que fantasmas???!!! — perguntou a mocinha, já apavorada.

Aí a vizinha explicou a fama da casa, explicou que ali costumavam aparecer almas penadas pelos corredores, depois de meia-noite, e havia mesmo uma assombração que era famosa, pois aparecia com uma regularidade de cobrador da Light (mesmo em época de racionamento).

Está na cara que a mocinha nervosa entrou em casa tremendo às pampas. Inclusive, diga-se, a mocinha era dessas nada desprezíveis. Pelo contrário, era assim o número que a gente calça; tamanho universal, muito mais pra boa do que pra intelectual. Por isso que as pernas que tremiam eram até muito bem torneadas. Quando ela entrou foi aquele escarcéu. Choradeira, tomada de calmante, os pais dizendo que aquilo era bobagem, etc.

O fato é que, daquele dia em diante, toda noite os moradores ouviam estranhos ruídos e até o velho, que era cético de doer, começou a acreditar mesmo que a casa era visitada por uma assombração.

A mocinha, no entanto, embora reclamasse muito da onda noturna, estava cada vez mais viçosa. Deixou de ser nervosa e havia em seus reclamos uma certa falta de convicção.

Um dia, o velho, pela manhã, encontrou uma ponta de cigarro no corredor; como ele não fumasse (nem fantasma fuma), desconfiou de que ali havia lingüiça por debaixo do feijão.

De noite ficou na sala, escondido atrás de uma cortina, espiando. Pouco depois entrava na casa a assombração. Era um sargento da aeronáutica.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.
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Bronca de esquina

Tia Zulmira, cheia de experiência e transbordante de saber, não se cansa de repetir: "Bronca é a arma do otário." E é isso mesmo. Dar a bronca, até hoje não adiantou o lado de ninguém.

Mas a senhora que blasfemava, na esquina, ainda não morou nesse detalhe e espinafrava o marido, para gáudio dos circunstantes, que torciam ao derredor.

Era uma senhora assim dos seus 50 carnavais. Um pouco castigada pelas intempéries da vida, mas ainda bastante sacudida. Pelo menos, disposta a botar os rapazes da Radiopatrulha pra trabalhar. Ciumenta aos potes, era o que se podia deduzir ou o que deduziu aqui o batucador datilográfico que, incorporado à turba ignara, esperava o fim da cena pra ver o bicho que ia dar.

Foi — para sermos mais precisos — na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Santa Clara, quer dizer, duas artérias do tráfego com nomes de santas, mas que nem assim a dona respeitava. Pelo que ficou exposto, o senhor grisalho que ouvia a espinafração com visível mal-estar era o marido e vinha pela calçada, em sentido contrário à senhora que berrava (sua esposa), de braço dado com uma mariposa do luxo e do prazer — como tão bem classificou um certo tipo de moçoilas desajustadas o poeta urbanista Orestes Barbosa. Apanhado no flagra, soltou a mariposa e estava ali, ouvindo aquilo tudo, com platéia das mais seletas.

Para ver o porquê do ajuntamento, chegou um Cosme. Ou talvez fosse um Damião; não temos certeza. Esses guardas quando policiam sozinhos a gente nunca sabe se é um Cosme ou um Damião. O importante é que ele chegou, pigarreou e lascou em dialeto carioca:

— Qual é o "causo"?

O senhor explicou que não era nenhum, que sua mulher estava nervosa, que iria levá-la dali, etc., etc. Foi pior. Ela gritou que com ele não ia nem pro inferno. Tinha 25 anos de casada e já estava cheia das suas perfídias. Vejam vocês, casada há 25 anos e ainda tinha um ciúme daquele tamanho. Já era tempo para acostumar-se com o marido que tinha.

Aí o senhor grisalho não agüentou mais. Ia passando um lotação. Ele abriu caminho entre os curiosos e entrou na terrível condução, sem ao menos ver se era via Túnel Novo ou via Túnel Velho, o que nos deixa com a leve desconfiança de que ele queria era cair fora dali. Foi chato porque o lotação não foi em frente logo. Ainda ficaram entrando outros passageiros, do que se aproveitou a bronqueadora para também abrir caminho entre os presentes e ficar apontando pra janelinha, a dizer: "Vai... mas vai mesmo, desalmado. Não é a primeira vez que você me abandona."

O lotação meteu uma segunda e foi embora, mas ela não desistiu. Ficou procurando testemunhas para o seu infortúnio de ter um marido sempre disposto a amarrar a cabrita do lado de lá do cercado. Foi então que o rapaz ao seu lado ficou identificado como filho do casal. Até então era um rapaz consternado, assistindo à cena. Agora, ela o segurava pelo braço e espumava:

— Está vendo o cretino que você tem como pai?

Todos olharam pro rapaz. O Cosme (ou seria um Damião?) segurava o braço direito, o rapaz o braço esquerdo da mulher, mas ela não queria sair. Queria era mostrar a todos o infortúnio que a perseguia há 25 anos. Dava conselhos às moças em volta para não casarem, que os homens não prestam, que isso, que aquilo. Estava na bica para se tornar ridícula.

O filho, cansado de tentar livrá-la da curiosidade pública, deu um puxão mais forte no braço que estava sob sua responsabilidade. Isto foi o bastante para lembrá-la de que ele estava ali. Voltou-se de novo contra ele:

— Tá vendo que pai você tem? E não adianta querer me levar. Ele é que tinha de ir comigo e fugiu. Seu pai é um cretino.

O filho não agüentou mais:

— Que é que eu tenho com isso, mamãe? Quem escolheu meu pai foi você.

Gargalhada geral. Até o Cosme (ou talvez Damião) riu.

A velha calou a boca e foi andando. O filho, atrás, aliviado.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.
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