sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ândrocles e a patroa

Morava bem em frente ao boteco, o Ândrocles! Todos os freqüentadores do canavial o conheciam. Sim, porque era um autêntico canavial aquele botequim, onde a cana escorregava firme e toda noite fornecia à boêmia local um pelotão de caneados. Alguns iam curtir o porre em casa, outros continuavam a sofrer a influência da cana e acabavam encanados.

Ândrocles estava mais no primeiro do que no segundo caso. De resto, era um porrista ameno. Tomava umas duas ou três e ficava de pressão, muito falante, contando casos. Em dado momento, a mulher aparecia na janela, em frente, e chamava:

— Ândrocles, vem pra casa!

Ele respondia: — Tô indo, nega! — olhava em volta e invariavelmente informava o que todos já sabiam: — É a minha patroa!

Uma chata, a patroa do Ândrocles. Dessas velhotas de bigode, verruga no rosto e gordona, que a gente tem a impressão de que não é bruxa porque excedeu em peso à categoria e, se montasse numa vassoura, quebrava o cabo. Ainda por cima mandona, com mentalidade de sargento de cavalaria reformado. Diziam, inclusive, que, de vez em quando, quando o Ândrocles se rebelava pouquinha coisa, sarrafeava o coitado.

A turma do boteco gostava dele. Era um velhote culto; pelo menos para aquela turma, era um Rui Barbosa. Contava história, explicava coisas, tirava dúvidas, tudo com modéstia, sem botar a menor banca. Uma vez explicou para os amigos quem fora Ândrocles:

— É uma lenda — esclareceu, logo fez-se silêncio no boteco, para que prosseguisse. Ele tomou mais um gole da que matou o guarda e prosseguiu: — Ândrocles era um escravo e um dia fugiu, isto é, eu não me lembro bem se fugiu. O que eu sei é que teve que se esconder numa gruta, e lá dentro tinha um leão. Era um big leão, feroz às pampas, e o xará ficou besta por não ter sido atacado. Aí, quando seu olhar se acostumou à escuridão da gruta, reparou que o leão estava com o maior espinho atravessado numa das patas... — tomou mais um gole e pediu ao português do balcão que botasse mais uma.

Servido, bicou, lambeu os beiços e continuou: — Ândrocles, de tanto sofrer, não podia ver ninguém sofrendo, nem mesmo um leão. Por isso se aproximou devagarinho e conseguiu arrancar o espinho da pata do leão, que desapareceu gruta a fora, todo contente. Os tempos passaram e, um dia, Ândrocles, por ser cristão, foi aprisionado e jogado na arena para os leões comerem — aí parou de novo, para respeitar uma técnica de suspense muito comum em novela de televisão.

Os olhares dos companheiros de marafa estavam todos postados nele:

— Eu sou como o Ândrocles da lenda. Agora mesmo, vendo vocês tão interessados, já estou com pena de ter interrompido a história. Segundo eu sei, os algozes de Ândrocles vibraram, quando viram aquele leãozão caminhar urrando para ele. Mas aí foi aquele pasmo: o leão era o mesmo da gruta e, reconhecendo seu benfeitor, começou a lambê-lo e a fazer festinha, que nem cachorrinho de francesa.

— Quem lhe contou esta história? — perguntou um outro cachaça.

— Bernard Shaw — respondeu Ândrocles, sabendo que ali ninguém conhecia o dramaturgo irlandês.

Houve um silêncio comovido entre os bêbados. Um silêncio muito comum em comunidade de bêbados, que são pessoas que se comovem com muita facilidade. Um velhote de nariz vermelho, muito mais vermelho de conhaque do que de gripe, chegou a puxar um bruto lenço de quadrados para se assoar.

E o silêncio ainda permanecia, quando se ouviu o grito medonho à porta: — Ândrocles, seu capadócio... bebendo sem permissão!?!?

Todos se viraram a um tempo: era a patroa do Ândrocles.

— Querida! — ele disse, mas a velhota estava possessa e esbravejou: — Aproveitando a minha ausência para vir beber sem ordem. Já para casa, rato imundo!

Ândrocles colocou o copo em cima do balcão e nem pensou em pagar a despesa; saiu passado, com a vergonha que a implacável "sargenta" aumentou ao dar um safanão em sua nuca, que o fez perder o equilíbrio e ajoelhar na calçada.

Ândrocles levantou-se e correu cambaleante para dentro de casa, com ela atrás e, na sua nobreza, os bêbados todos se voltaram para o balcão, para não verem mais nada daquele vexame. O velho de nariz vermelho murmurou constrangido:

— E pensar que ele fez tudo na vida por essa vaca!

Começaram a beber devagar, outra vez. Só quem estava de frente para os acontecimentos era o português do balcão. Esperou que a porta se fechasse atrás do casal, do lado de lá da rua, e falou com desprezo no sotaque:

— Até o leão foi mais humano que esta gaja!
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora

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