terça-feira, 23 de agosto de 2011

Humilhação de homem

Gostava de dizer: — “Boba não sou!”. E explicava:

— Escreveu, não leu, o pau comeu.

De fato, pertencia a uma família de nervosos e exaltados. Dizia-se à boca pequena que o pai, na mocidade, matara um homem num cabaré do Recife. A mãe, por sua vez, tinha origem italiana. Rosinha podia dizer de boca cheia: — “Tenho a quem sair”. Quando começou a namorar Arturzinho, foi avisando:

— Meu anjo, sou muito boa, tal e coisa. Mas não me queira fazer de palhaça, porque eu...

Ele trabalhava no Itamaraty e era delicado ou, como diziam os despeitados, um “pomada”. Perguntou:

— Você faria o quê?

E a menina:

— Nessas ocasiões, topo qualquer parada.

Arturzinho achou graça:

— Sabe que você tem uma gíria muito gostosa?

O CONTRASTE

Havia entre os dois um contraste flagrante e até espetacular. Rosinha, cheia de corpo, de vitalidade, sem papas na língua, com uma exuberância de modos e de palavras quase inconvenientes; Arturzinho, de uma polidez, uma cerimônia, um formalismo que só vendo. Foi talvez a própria força do contraste que os aproximou. Num dos primeiros dias do namoro, ele foi encontrá-la, agitada, fremente. Admirou-se: “Que é que há?”. E ela:

— Imagine você! Agora mesmo um engraçadinho, no ônibus, fez-se de besta comigo e meti-lhe a mão na cara!

Arturzinho balbuciou:

— Você fez isso?

Exultou:

— Fiz, sim, fiz e faço. Ou tu pensas que é a primeira vez que eu dou na cara de um homem?

Arturzinho pigarreia. A verdade é que não entendia que uma mulher pudesse assumir atitudes brutais de homem. Dois dias depois combinaram um cinema na sessão das seis. Acontece, porém, que, quando ia saindo do Itamaraty, foi chamado ao gabinete do chefe. Demorou-se lá e quando, por fim, apareceu na porta do cinema, Rosinha o esperava já há quarenta minutos, debaixo de chuva. A pequena fez um escândalo:

— Você fez comigo um papel de moleque.

Protestou, chocado:

— Mas o que é isso?

E a pequena:

— Moleque, sim, senhor. E não me faça isso outra vez, porque senão já sabe!

Ele se encrespou também: —”Já sabe o quê?”. A irritação dele aumentou a dela. E, súbito, Rosinha diz-lhe:

— Quer ver como eu lhe meto a mão na cara, aqui, na frente dessa gente toda?

Lívido balbuciou: — “Quero”. Então, diante dos curiosos, que acompanhavam o incidente, Rosinha deu-lhe uma bofetada, uma bofetada de estalo, como no teatro. Em seguida, deixou-o plantado à boca da bilheteria e afastou-se, precipitadamente.

A FAMÍLIA

Chegando em casa, ela conta o episódio de rua. O pai, que acabara de chegar, passou-lhe um pito:

— Isso não se faz, não está direito. Vou te dizer uma coisa, minha filha: — na cara de homem não se bate!

— E é justo eu ficar esperando uma hora, papai?

Pondo o cigarro na piteira, o velho continua:

— Não tem explicações. Pensa um pouco, raciocina: — como é que você esbofeteia o homem com que vai se casar?

Então, Rosinha começou a chorar: — “Tem razão, papai, tem razão!”.

O pai pousou a mão na sua cabeça:

— Faz o seguinte: telefona para ele, pede-lhe desculpas, diz que foi a primeira e a última vez.

A mãe também secundou: — “Você fez mal, Rosinha. Homem é homem”. E quando ela, arrependida, já se dirigia para o telefone, não sei se o pai ou a mãe perguntou-lhe:

— E ele não reagiu? Não te deu uns empurrões? Não fez nada?

— Nada.

A irmã, caçula de catorze anos, que ouvira tudo até então sem comentários, chamou-a: “Vem cá um instantinho, Rosinha”. Leva-a para um canto:

— Olha aqui: — se eu fosse você, percebeste? Mandava o Arturzinho passear.

— Por quê?

E a outra:

— Um sujeito que leva uma bofetada e não reage, é o fim. Pra mim, não servia. É um boboca!

O que entendia a caçula de vida e relações humanas? Seja como for, o fato é que seu comentário impressionou profundamente Rosinha. Resolveu não telefonar. De noite, no quarto, a irmã insistia:

— Ou o homem é homem mesmo ou não interessa.

ESPANTO

No dia seguinte, pela manhã, bate o telefone. Era Arturzinho. Antes de dizer “bom dia”, começa:

— Meu bem, estou telefonando para te pedir desculpas.

Era demais. Rosinha pula:

— Como pedir desculpas? Você apanha na cara e ainda pede desculpas?

Ele gagueja:

— Eu te fiz esperar e...

Rosinha corta novamente: “Pelo amor de Deus, Arturzinho! Não me peça desculpas. Sou eu que vou te pedir, eu! Andei mal, mas você pode ficar certo de que nunca mais, ouviu?”. Do outro lado da linha, o pobre-diabo insiste: — “Quer dizer que você não está mais zangada?”. Rosinha perdeu de vez a paciência:

— Quem deve estar zangado é você, e não eu!

À tarde, encontraram-se no jardim de sempre. Ela abriu a alma: — “Escuta, meu anjo: — eu merecia uma surra por ter te esbofeteado”. Mais que depressa, ele bate na madeira: — “Isola!”. E a pequena, agarrada a ele:

— Escuta, meu amorzinho: — se, um dia, você me der uma surra, eu acharei que mereci, compreendeu? Te devo uma boa surra!

AS BODAS

Passou-se. Uns três meses depois, ficaram noivos. Mas, coisa curiosa: — de vez em quando, ela, aninhada nos seus braços, suspirava: — “Aquela bofetada não me sai da cabeça. Eu acho que só vou ficar em paz com a minha consciência quando me deres uma surra!”. O noivo, todo borrado de batom, exclamava: — “Deus me livre!”. Era uma doce figura, de quem se dizia: — “É uma pérola de gravata!”.

Até que chegou o dia do casamento. Depois das duas cerimônias, no civil e no religioso, e de uma breve reunião na casa dos pais da noiva, o casal parte para a nova residência. E lá, quando Arturzinho quer beijá-la, Rosinha desprende-se num movimento inesperado e ágil:

— Já, não. Primeiro você vai fazer uma coisa.

Na impaciência do desejo, ele indaga: — “O quê?”. E ela, trincando os dentes:

— Você vai me dar uma surra! Ou me dá uma surra ou não terá um beijo de mim, nada!

Ele não entende: — “Mas surra como? Que surra?”. A pequena, porém, já premeditara tudo. Vai no guarda-vestidos e volta com uma vara de marmelo, que ele olha no maior espanto de sua vida. Ela está diante dele:

— Dei uma bofetada no meu namorado. Agora quero apanhar do meu marido. Anda, bate!

Durante uns quarenta minutos, discutem. Desesperado, ele argumenta: — “Mas isso é loucura! Uma criancice! Onde já se viu?”. Rosinha era irredutível: — “Ou a surra ou não haverá nada entre nós dois!”. Por fim, inteiramente fora de si, ele ensaia duas lambadas. Ela exige: — “Mais forte! Mais forte!”. O marido obedeceu. Durante uns cinco minutos, Rosinha o instigou: — “Mais, mais! Não pára!”. Por fim, exausto e desvairado, ele larga a vara de marmelo.

Então a mulher atira-se nos seus braços, soluçando:

— Agora, posso te beijar e podes me beijar, porque és homem!

A partir de então, para fazê-la vibrar, Arturzinho tinha que lhe dar umas lambadas.

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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

E. T. A. Hoffmann

Os tons macabros e sarcásticos que Hoffmann emprestou freqüentemente à narrativa romântica exerceram influência duradoura em toda literatura fantástica posterior.

Ernst Theodor Wilhelm Hoffmann (cujo penúltimo nome trocou para Amadeus em homenagem a Mozart) nasceu em 24 de janeiro de 1776 em Königsberg, Prússia (posteriormente Kaliningrado, Rússia).

Estudou direito e depois de ocupar vários cargos burocráticos tornou-se, em 1806, diretor de orquestra em Bamberg e em Dresden, já que, além de escritor, era excelente crítico musical e compositor de qualidades, autor do balé Arlequin (1811) e da ópera Undine (1816).

Em 1814 Hoffmann mudou-se para Berlim como juiz da corte de apelação. Iniciou a carreira literária com Phantasiestücke nach Callots Manier (1814-1815; Fantasias à maneira de Callot), coleção de contos fantásticos, seguidos do romance Elixieren des Teufels (1815-1816; As drogas do diabo).

O prestígio que lhe deram essas obras tornou-se ainda maior com a publicação de livros de contos como Nachtstücke (1817; Cenas noturnas) e Die Serapionsbrüder (1819-1821; Os irmãos Serapião). Neles predomina uma angustiante confusão entre o sono e a vigília, a vida real e o sobrenatural; e sinistros ou estranhos personagens irrompem na vida cotidiana dos seres humanos para marcá-los indelevelmente com sua presença.

A última obra do autor foi um romance, Lebensansichten des katers Murr nebst fragmentarischer Biographie des Kapellmeisters Johannes Kreisler (1820-1822; Opiniões do gato Murr, com uma biografia fragmentária do maestro Johannes Kreisler), magnífico exemplo de sua irônica capacidade de observação.

Suas obras de ficção inspiraram óperas e balés a compositores como Wagner, Hindemith e Offenbach ao criarem óperas e balés, e sob o título de Contos de Hoffmann tornaram-se leituras favoritas do grande público.

Hoffmann morreu em Berlim em 25 de junho de 1822.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Peter Lorre

Peter Lorre (László Löwenstein) nasceu em 26 de junho de 1904 em Ružomberok, Império Austro-Húngaro (atual Eslováquia), e faleceu em 23 de março de 1964, em Hollywood, Estados Unidos.

Bancário e ator desconhecido de teatro, foi visto por Fritz Lang e escalado para fazer o papel do grotesco assassino de crianças em M., o Vampiro de Düsseldorf (1931).

Tornou-se um astro. Feio, baixo e de olhos saltados, Lorre provocava nas telas sentimentos de repulsa. Na maioria das vezes fazia papel de vilão.

Depois de fugir da Alemanha nazista para a Inglaterra em 1933, trabalhou com Alfred Hitchcock em O Homem que Sabia Demais (1934).

Em Hollywood, fez alguns tipos inesquecíveis, mas, desiludido com a falta de bons papéis, foi para a Alemanha para dirigir, escrever e atuar em Der Verlorene (1951), que se tornou um fracasso comercial. Voltou para Hollywood e fez seu último filme, O Corvo, em 1963.

Vincente Price e Peter Lorre

Feio, baixo e de olhos saltados

Após atuar em várias peças em seu país natal e obter certo reconhecimento, começou uma carreira nômade em países como Alemanha, Suíça, França, Inglaterra e Estados Unidos, participando de diversos filmes.

Foi apresentado ao lendário Fritz Lang que viu nele a figura perfeita para fazer o papel do grotesco assassino de crianças em M., o Vampiro de Düsseldorf (1931).

Este filme criou o psicopata assassino que dominou o cinema até os dias de hoje. Em vez de um monstro furioso e poderoso, um sujeito tímido e reprimido. Pequeno e vulnerável, é tão desprezível quase causa pena.

Peter Lorre encarna a primeira aparição deste personagem no cinema de forma tão intensa e emocional que até hoje ainda é imitado (e, nunca superado). Soa inacreditável que depois de passar o dia todo filmando como o matador pedófilo de forma tão apaixonada, quando dava sete horas Lorre saía e ia para o teatro onde fazia uma comédia.

Em volta dessa soberba atuação, Fritz Lang, em sua primeira fita sonora, revoluciona o cenário cinematográfico assim como em Metrópolis - as vozes da multidão discutindo, o grito da mãe da primeira vítima e, é claro, o assovio que identifica o criminoso, de quem nunca se via o rosto, outro recurso copiado até hoje.

O filme retrata uma ambientação urbana contemporânea, recheada de criminosos e policiais, Acreditam os estudiosos da sétima arte que Fritz Lang também dá a colaboração significativa para o que seria o filme noir americano.

Peter Lorre em seu papel como o assassino Hans Beckert, marcou época na história do cinema. Tornou-se um astro. Embora não pudesse ser comparado ao charmosos atores de sua época pois era feio, baixo e de olhos saltados, Lorre tinha o talento de provocar nas platéia sentimentos dos mais diversos.

Na maioria das vezes fazia papel de vilão. Depois de fugir da Alemanha nazista para a Inglaterra em 1933, trabalhou com Hitchcock em O Homem que Sabia Demais (1934). Também atuou, como coadjuvante,nos filmes Agente Secreto (1936), de Hitchcock, Crime e Castigo (1935), de Sternberg, e Esse Mundo É um Hospício (1944), de Capra.

Atuou em clássicos como O Falcão Maltês (41), de Huston, e Casablanca (42), de Curtiz. Em Hollywood, fez alguns tipos inesquecíveis, mas, desiludido com a falta de bons papéis, foi para a Alemanha para dirigir, escrever e atuar em Der Verlorene (1951), que se tornou um fracasso comercial.

Apesar de seu enorme talento, Peter Lorre não obteve, em vida, o reconhecimento.

Filmografia

1931: M, o Vampiro de Dusseldorf (M)
1934: O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much)
1935: Crime e Castigo (Crime and Punishment)
1936: O Agente Secreto (Secret Agent)
1937: O Lanceiro Espião (Lancer Spy)
1937: Nancy Steel Desapareceu (Nancy Steel is Missing)
1938: Mendigo Milionário (I'll Give a Million)
1940: Almas Rebeldes (Strange Cargo)
1941: Relíquia Macabra/ O Falcão Maltês (The Maltese Falcon)
1942: Balas Contra a Gestapo (All Through the Night)
1942: Agente Invisível Contra a Gestapo (Invisible Agent)
1942: Casablanca (idem)
1942: Um Cientista Distraído (The Boogie Man Will Get You)
1943: O Expresso Bagdá-Istambul (Background to Danger)
1943: A Cruz de Lorena (The Cross of Lorraine)
1943: De Amor Também se Morre (The Constant Nymph)
1944: A Máscara de Dimitrios (The Mask of Dimitrios)
1944: Esse Mundo É um Hospício (Arsenic & Old Lace)
1944: Passagem para Marselha (Passage to Marseille)
1945: Quando os Destinos se Cruzam (Confidential Agent)
1945: Hotel Berlim (Hotel Berlin)
1946: Justiça Tardia (The Verdict)
1946: Os Três Estranhos (Three Strangers)
1947: Os Dedos da Morte (The Beast with Five Fingers)
1947: Minha Morena Linda (My Favorite Brunette)
1948: Casbah (idem, com Yvonne De Carlo)
1949: Zona Proibida (Rope of Sand)
1954: 20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea)
1954: O Diabo Riu Por Último (Beat the Devil)
1956: Refúgio dos Proscritos (Congo Crossing)
1957: Meias de Seda (Silk Stockings)
1957: O Palhaço que Não Ri (The Buster Keaton Story)
1957: O Bamba do Regimento (The Sad Sack)
1959: O Grande Circo (The Big Circus)
1961: Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea)
1962: Muralhas do Pavor (Tales of Terror)
1962: Cinco Semanas num Balão (Five Weeks in a Balloon)
1963: O Corvo (The Raven)
1964: Farsa Trágica (The Comedy of Terrors)
1964: O Otário (The Patsy)
1966: Caçada Humana (The Chase)

Fontes: O Vampiro de Düsseldorf e os filmes de TV que ninguém conhece; Wikipédia, a enciclopédia livre; Peter Lorre.

Charlotte Rampling

Charlotte Rampling, atriz, nasceu em Sturmer, uma pequena cidade do condado de Essex, na Inglaterra, em 5 de fevereiro de 1946. Sua carreira abrange mais de quatro décadas de cinema, especialmente no britânico, americano, francês e italiano. É filha de um coronel do exército britânico, Godfrey Rampling, campeão dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim e de Anne Isabelle (nascida Gurteen), uma pintora.

Aos nove anos, sua família mudou-se para Fontainebleau na França, onde aprendeu francês em uma escola municipal. De volta à Inglaterra, a adolescente começou a se apresentar em teatros de revista com a irmã e em seguida trabalhou durante curto período como manequim.

Assim como Jane Birkin e Jacqueline Bisset, estreou no filme ícone da swinging London, “A Bossa da Conquista”, em 1965. Em seguida voltou-se para as comédias populares enquanto cursava arte dramática na Royal Court School. Mas a morte brutal de sua irmã marcou-a profundamente, fazendo com que decidisse deixar a Grã-Bretanha.

Instalou-se então na Itália e teve seu primeiro encontro marcante com Luchino Visconti. Foi ele que a dirigiu em 1969 no filme “Os deuses Malditos”. A atriz provou rapidamente que tinha sangue nas veias, passando do universo da ficção científica de Zardoz (Boorman) ao do sado-masoquismo, de “O porteiro da noite”, em 1974, filme que a revelou ao grande público. Nesse sucesso-escândalo de Liliana Cavani, ela encarna uma sobrevivente dos campos nazistas que mantém uma estranha relação com seu antigo carrasco.

Através de seus papéis, ela se compraz em explorar as áreas mais perturbadas da alma humana. Assim, enamora-se de um chimpanzé diante das câmeras de Oshima (Max mon amour, 1985). Os americanos não se mostram insensíveis ao charme da enigmática Charlotte, que tocou Woody Allen (“Memórias” - 1980), Robert Mitchum (“O Último dos Valentões”) e Sidney Lumet (“O Veredicto”), no papel de uma mulher fatal.

No fim dos anos 70, elege como domicílio a França e roda filmes com Boisset (“Táxi Roxo”), Lelouch (“Viva la vie! “) e Deray (no policial "On ne meurt que deux fois", en 1985).

Menos presente nas telas de cinema nos anos 90, faz, no entanto, interpretações notáveis em 2000 em “O Jardim das Cerejeiras” (baseada na obra de Tchekhov) e no singular "Signos e Desejos" de Jonathan Nossiter.

No ano seguinte, Charlotte Rampling faz um brilhante retorno em “Sob a Areia”, o retrato de uma mulher desamparada após o desaparecimento de seu marido, sob a batuta de François Ozon, um cineasta que ela reencontrará depois em “À beira da Piscina” e “Angel”. Foi nesse momento, ao receber um César pelo conjunto de sua obra (em 2001), que se tornou definitivamente uma estrela, notabilizando-se tanto na comédia (“Beije Quem Você Quiser”, “Désaccord parfait”) quanto em filmes de suspense (“Lemming”), autorais (“Em direção ao Sul”, 2006) e também na diversão hollywoodiana (“Instinto Selvagem 2”).

Em 2008, a atriz concretiza um projeto atrás do outro: verdadeira lady ao lado de Keira Knightley em “A Duquesa”, de Saul Dibb, ela também criou a personagem de grande sacerdotisa em “Babylon A. D.” de Mathieu Kassovitz e a mãe de família bisbilhoteira em “Algo que Você Precisa Saber”, de Cécile Telerman, antes de interpretar seu próprio papel no “O Baile das atrizes” de Maïwenn. Continuando a variar seus registros, a atriz participou em seguida da comédia musical britânica “StreetDance 3D”, onde impôs-se na pele de uma mulher desiludida em “A vida durante a guerra” de Todd Solondz e brilhou no papel de uma mecena na comédia dramática de Julio Médem, "Caótica Ana".

Na década de 1990, época em que esteve afastada das grandes produções internacionais, Rampling lidou psicologicamente com a questão que a afligiu por toda a vida adulta e lhe deu fama de séria e fechada no cinema, a da morte de sua irmã mais velha, Sarah, mãe prematura e que suicidou-se em 1966 na Argentina, aos 23 anos. Durante quase quarenta anos, até a morte de sua mãe em 2001, o segredo de seu suicídio foi guardado por ela e seu pai - que morreu aos 100 anos, em 2006, quando era o mais idoso atleta olímpico ainda vivo da Grã-Bretanha - que juraram não deixar a esposa e mãe saber da verdade, sobre o que, na época, foi noticiado como morte por hemorragia cerebral. Sobre o que viveu nesse período, declarou: "Foi uma época em que tive que conviver comigo mesma sobre isso, em profunda depressão, se devia trazê-la ou não para mais perto de mim, se devia falar a verdade. A morte de minha mãe desbloqueou minha mente."


Foi casada duas vezes, a primeira delas em 1972 com Bryan Southcombe, um ator e publicista, a meio de um escândalo pelas noticias de que, antes disso, os dois viviam numa relação de ménage à trois com um modelo chamado Randall Lawrence. Dessa relação, que acabou em divórcio em 1976, ela teve um filho, Barnaby, hoje diretor de televisão. Em 1974, declarou sobre o fato: "Existem tantos mal-entendidos na minha vida. (...) Certa vez causei um escândalo por dizer que vivia com dois homens. (...) Eu não disse isso num sentido sexual. (...) Éramos apenas como quaisquer pessoas que dividem um apartamento."

Seu segundo casamento, em 1978, com o músico Jean-Michel Jarre, lhe deu mais três filhos e durou mais de vinte anos, acabando publicamente em 1997, quando descobriu através de matérias de tablóides de fofocas que o marido tinha uma caso com outra jovem mulher, e teve um distúrbio nervoso.

Desde 1998 vive com um empresário francês da área de comunicações, Jean-Noël Tassez.

Fontes: Wikipédia; Biography - My French Film Festival.